A correspondente do jornal francês Le Monde Annick Cojean realizou uma palestra durante a 61ª Feira do Livro de Porto Alegre. Ela falou sobre seu livro-reportagem “O Harém de Kadafi”, no qual conta histórias de meninas e mulheres que foram prisioneiras e vítimas de estupro do ditador líbio. O evento ocorreu no dia 3 de novembro, no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural Érico Veríssimo, e foi mediado pela jornalista Cláudia Laitano.

Annick viajou para a Líbia como enviada especial na época do início da Primavera Árabe. Ela observou as mulheres do país, se interessou pela maneira como se expressavam e decidiu mostrar o papel delas na revolução. “Nos contam a guerra unicamente do ponto de vista masculino, das guerras, dos tanques. Tudo que lemos, ouvimos e assistimos é apenas sob a ótica dos homens”, disse.

A correspondente começou a conversar com as mulheres líbias, que lhe contavam casos de estupro pelo ditador Kadafi. Annick investigava os casos, no entanto, nenhuma mulher admitia que houvesse acontecido consigo. “Na cultura árabe, o estupro é um ‘crime de honra’, uma vergonha para elas”, explicou a correspondente. Porém, uma garota aceitou dar testemunho.

A jornalista conheceu Soraya – nome falso que usa no livro para protegê-la – quando a garota tinha 22 anos. Entretanto, tinha apenas 15 quando tudo começou. “Ela disse que tinha a impressão de ter 40 anos, de ter vivido várias vidas, de ter sido suja”, contou Annick. Muamar Kadafi foi até a escola onde Soraya estudava, onde as “dez mais belas meninas” deveriam recebê-lo. Logo na primeira visita, o ditador colocou a mão sobre a cabeça da garota, símbolo para seus guarda-costas, que significava que era ela que ele “queria”.



Soraya foi buscada em casa e levada até o “harém” do ditador, onde já havia outras mulheres, prisioneiras sexuais, de diferentes idades. As garotas eram abusadas todos os dias por Kadafi e obrigadas a usar cocaína, a tal ponto que Soraya sofreu uma overdose. “O estupro era, para ele, uma arma de guerra, uma arma de poder”, disse Annick.

“Foi como se um véu fosse tirado desse regime”, afirmou Annick sobre o impacto do relato. “O livro provocou um choque na Líbia. Não se tinha a dimensão do que Kadafi fazia nesse sentido”, destacou a mediadora, Cláudia Laitano. “O Harém de Kadafi” foi distribuído gratuitamente no país, para que o máximo de pessoas soubesse. Nas manifestações que ocorreram na Líbia, pessoas seguravam cartazes com a capa do livro. As mulheres que sofreram como Soraya foram reconhecidas oficialmente como vítimas de guerra, o que foi um símbolo importante para o movimento.

“Havia tal hipocrisia no regime dele que Kadafi se apresentou como libertador das mulheres. A propaganda era tão bem feita que ele poderia parecer quase um feminista. Ele tinha mulheres na sua academia militar, mas, para ele, era como um viveiro de suas futuras amantes”, ressaltou Annick.

Quando chegou a Porto Alegre, a jornalista não sabia, mas, no mesmo dia de sua palestra, centenas de mulheres se manifestaram nas ruas em um movimento feminista, defendendo o direito do aborto e protestando contra as agressões e contra a intolerância. “As mulheres não são minoria, não são uma tribo perdida, são metade da população, sobre a qual não se fala”, criticou. Em bate-papo com o público, ela discutiu as questões do feminismo no Brasil, como o projeto que proíbe a venda da pílula do dia seguinte.

Annick terminou a palestra falando sobre a importância do trabalho dos jornalistas, sobretudo de correspondentes. “Nada equivale a um trabalho localizado in loco”, disse. Ela contou que falou sobre a reportagem para um amigo, também, jornalista. Ele falou que já sabia que havia casos assim. Inclusive, Saddam Hussein também fazia uso dessa prática. “Mas, se você sabe de tudo isso, quantos artigos você escreveu sobre o assunto?”, criticou, falando sobre o silêncio acerca do tema.

Após a palestra, a autora autografou os livros no espaço da feira.
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