Após 30 anos, George Miller revisita o mundo pós-apocalíptico de Max Rockatansky para levantar a saga a mais um degrau de insanidade.

De acordo com o diretor da saga, George Miller, Mad Max: Estrada da Fúria não é uma sequência direta ao terceiro filme, tampouco um reboot da série ― apesar de possuir Tom Hardy no papel de Max e não Mel Gibson. Estrada da Fúria é uma revisita ao mundo que inspirou diversas obras, tais como o filme O livro de Eli e as franquias de jogos Fallout e Borderlands, abordando um futuro pós-apocalíptico em um ambiente desértico onde são travadas guerras entre gangues em busca de água e gasolina, ambos recursos extremamente escassos.

Apesar de nenhum filme da saga ter uma referência cronológica para uma linha do tempo, Estrada da Fúria mostra um distanciamento notável da atmosfera que mostrava o primeiro filme e uma evolução dos acontecimentos das sequências, não só isso, mas também uma mudança completa de Max Rockatansky, policial que teve sua mulher e filho assassinados por uma gangue de motoqueiros e protagonista dos três primeiros filmes.

A todos que procuram um filme com uma moral filosófica pós-apocalíptica: este filme não é pra você, este filme não vai agradar a ninguém que queira uma história bem feita, mesmo que apresente uma história rasa com uma premissa básica, este filme só foca em uma coisa, ação, aspecto no qual Miller não desaponta.



A trama se desenvolve em torno de um sequestro das esposas ― frequentemente relacionadas a “coisas” ― de Immortan Joe, senhor da Cidadela, cidade que faz trocas com outras vilas, oferecendo água em troca de munições e gasolina. Immortan Joe é a personificação de um ditador, todo o seu poder de controle sobre o povo vem de seu estoque de água, com isso em mente, é tratado visto como um deus por seu exército, os war boys. Immortan é roubado pela Imperatriz Furiosa, um dos melhores membros do exército, que rouba as esposas com a promessa de levá-las a um lugar que elas não sejam tratadas apenas como objetos. Ao descobrir que foi furtado, Joe reúne as cidades vizinhas e começa uma perseguição à Imperatriz Furiosa.

Surpreendentemente, Max não é o foco de Estrada da Fúria, ele é só um dos passageiros do caminhão “Máquina de Guerra” na busca de um lugar melhor para Furiosa e as esposas. Há uma ótima sinergia entre os membros do caminhão em busca de sobrevivência que vai se desenvolvendo ao decorrer do filme, um vínculo que, embora comece por pura necessidade, se desenvolve acaba se tornando uma parceria com algo maior em mente. Max também não é uma personagem com o perfil super-herói, não é o mais habilidoso motorista nem o melhor atirador, tem lapsos de insanidade no qual é atormentado por pessoas que não pôde salvar durante sua vida e é tratado, assim como as esposas, como um objeto, uma “bolsa de sangue” para os war boys.

A ausência de sociedade e o excesso de solidão na vida de Max causa impacto a ele, no início do filme, Max é visto com uma barba e cabelo gigante, sujo e desgrenhado, similar a um homem das cavernas, e isso não é só aparência, somente em duas partes do filme Max fala mais de uma frase, enquanto uma delas é no início, quando ele explica o motivo do apocalipse. Max tem problemas de dicção, não consegue se expressar direito, há cenas do filme que ele simplesmente acena com as mãos pra não falar nada.

Apesar de não ser uma trama muito profunda, o conteúdo presente na ação do filme preenchem esse buraco, o mundo criado por George é rico, seja na forma de vida da população ou na própria religião cultuada por ela, que por sinal traz algumas referências a marcas do nosso cotidiano. Efeitos de saturação, sonoros, o ângulo das câmeras, o figurino das personagens, carros, explosões, colisões e efeitos por computação gráfica explicam o orçamento investido de duzentos milhões de dólares. George Miller não reinventa a roda com o filme, mas a adrenalina causada pela ação visual, junto com a trilha sonora tensa e fantástica, sem dúvida nenhuma eleva o patamar de qualidade esperado de um filme de ação no mercado cinematográfico atual.
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