Sala de Aula

Discriminação, violência sexual, física e psicológica são situações comuns na vida de travestis e transexuais no Brasil. Segundo a ONG Trangender Europe, o país é o que mais mata essa população em todo o mundo. O que faz com que essas pessoas acabam vivendo em uma situação de extrema vulnerabilidade social. O quadro fica ainda mais grave dentro do Sistema Carcerário, pois além da reprodução das violências que sofrem em liberdade as travestis e transexuais sofrem com a falta do controle estatal nas galerias, a superlotação e a tortura. Estupros, espancamentos e a necessidade de esconderem sua identidade de gênero nesses espaços se tornam rotina.
Com o objetivo de garantir condições mínimas de dignidade e a integridade física de travestis e transexuais vêm sendo implementadas alas LGBT nas penitenciárias. O Presídio Central de Porto Alegre, considerado uma das piores casas prisionais do país pela CPI do Sistema Carcerário, adota essa política desde 2012.
O documentário ‘3ªdoH - Travestilidade em Privação de Liberdade’ busca dar visibilidade as vozes das travestis e transexuais encarceradas no Presídio Central na terceira galeria do pavilhão H. A partir do relato de cinco detentas busca se compreender suas histórias, suas relações com os outros detentos e os agentes penitenciários, além de refletir sobre a importância da criação de uma ala específica para essa população.

Leia mais:3ªdoH - Travestilidade e Privação de Liberdade

Projeto de Graduação em Jornalismo da ESPM-Sul
Reportagem: Renata de Medeiros e Tatiana Reckziegel
Fotografia: Desirée Ferreira
Orientação: Profa. Dra. Ângela Ravazzolo e Profa. Renata Stoduto

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O Jornalismo Cultural, escrito por Daniel Piza e publicado pela editora Contexto, traz ao mercado um resumo do que está acontecendo com os Segundos Cadernos no Brasil. Segundo Piza, devido à precária educação e ao declínio econômico, a qualidade dos textos e conteúdos dos jornalistas culturais estão empobrecidos. Com uma linguagem simples e acessível, o autor constrói uma obra literária para levantar uma nova geração de jornalistas mais preparados para o mercado cultural, a fim de que este seja mais sério, aprofundado, detalhista e encorajador para a sociedade leitora.

Daniel Piza começa o livro contando a história do jornalismo cultural. Apegando-se a uma seleção pessoal, Piza escolhe a fundação da revista The Spectator (1711) para a gênese desse tipo jornalístico. Os criadores da revisa eram dois ensaístas ingleses chamados Richard Steele e Joseph Addison, que tiveram como finalidade tirar a filosofia dos gabinetes e bibliotecas, escolas e faculdades, e levar para clubes e assembleias, casas de chá e cafés. E assim foi feito. Com a influência do humanismo,The Spectator influenciou a sociedade inglesa do século XVIII, trazendo a ideia de que o homem da cidade era moderno, preocupado com modas, com a saúde do corpo e da mente, e era também superior no que diz respeito ao seu comportamento e à política. Surgia, então, um jornalismo voltado às artes, à literatura, ao teatro e à música.

A partir do século XIX, o jornalismo cultural atravessou o Atlântico para ser desenvolvido nos Estados Unidos e no Brasil. Estavam em destaque profissional nesse período Henry James, Machado de Assis, José Veríssimo, Émile Zola, George Bernard Shaw e Karl Kraus. Esses e outros escritores marcaram um século de aperfeiçoamento dessa nova carreira jornalística, acompanhado com um toque de espiritualidade, erudição, reflexividade e ironia. Já no século XX, o elemento mais marcante foi a crítica, exercida, sobretudo, na segunda metade do século pela revista New Yorker, Spectator eEsquire, entre outros. No Brasil, a crítica em jornais começou nos anos 40 - quem fazia os papéis de jornalistas eram Álvaro Lis, Oto Maria Carpeaux, Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda. 

O jornalismo cultural, no início do século XXI, não é mais o mesmo. Segundo Daniel, as revistas culturas e intelectuais não têm a mesma influência na sociedade que os séculos passados. A crítica está superficial e limitada em bom, muito bom, excelente ou ruim; celebridades e baixa qualidade de avaliação de produtos são temas que se tornaram frequentes nos jornais e revistas; desencorajamento em escrever sobre obras que são de qualidade e menos conhecidas, as que não pertencem à massa. Além disso, os Segundos Cadernos precisam escapar das oposições, como elitismo e populismo, variedades e erudições, nacional e internacional. É necessário um equilíbrio entre esses temas: nutrir da expansão de horizontes do conhecimento, conhecer as diferentes culturas estrangeiras, sem esquecer, da nacional.

O jornalista, Daniel Piza, escreve sobre a relevância de um bom crítico cultural. Segundo ele, os verdadeiros profissionais não são aqueles que querem encontrar falhas onde não existem; que fazem críticas negativas contra o artista ou o escritor por vingança pessoal. É preciso ser profissional, e não ter medo, porém, de apontar críticas ao indivíduo se existir. Ainda, a formação cultural, o domínio de uma língua estrangeira e o estudo das boas críticas são requisitos do jornalista cultural. E, ao lado da crítica, a reportagem diz respeito à agenda de lançamentos e eventos, como livros, shows e exposições. Seu objetivo é trazer uma novidade ao leitor, uma tendência ou um debate no meio cultural. Os modelos de repórteres bem sucedidos são Ruy Castro e Sergio Augusto. 

Leia mais:O manual de um jornalista cultural

Confira os melhores trabalhos produzidos em sala de aula pelos alunos da ESPM-Sul:

2015/1
Mulheres invisíveis



2014/2
ESPM News - Programa 2 - Bloco 1


ESPM News - Programa 2 - Bloco 2

ESPM News - Programa 2 - Bloco 3

Leia mais:Sala de Aula

“Todas as formas” é o tema da exposição de Mariana Riera no Espaço Cultural ESPM-Sul. A visitação ao projeto artístico é do dia 29 de março a 10 de maio de 2014, segundas a sextas das 8h às 20h, e aos sábados das 9h às 15h. A maior atração desse evento são os desenhos faciais de pessoas conhecidas de Riera, em que estes pertencem a um conjunto de trabalhos que ela fez nos últimos três anos.

Quando entrei na exposição, tentei procurar logo a dedicatória do curador para entender as obras de Mariana. O texto foi escrito por Marilice Corona em 2014 e tinha como título “O Impulso Amoroso”. A linguagem textual é um pouco confusa, e é perceptível que a curadora escreveu para os “conhecedores” de arte, para os próprios profissionais ou amantes de artes plásticas, pois o linguajar era técnico. Corona inicia o texto com a narração de um mito que explica a origem da representação artística de todos os campos com a ideia de trazer a importância da arte para a vida da sociedade. Ainda, já tendo como foco a obra da artista, ela ressaltou que “impulso amoroso” é um aspecto essencial dos desenhos de Mariana Riera. Marilice, então, chama as obras da artista de “Desenho Amoroso”, referindo-se à fonte das figuras dos retratos – que são íntimos e pessoais – e a dedicação da linguagem de “Todas as formas”.   
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O que eu posso falar dos desenhos de Mariana Riera? Eles são impactantes, no entanto, não atraem a atenção do público. E como isso é possível? As pessoas que posaram para os retratos estão ou com os olhos fechados ou contemplando um lugar que não é visível no campo de visão do público. Elas são fontes não interessadas nos espectadores, e, por esse motivo, a exposição trás um ar de mistério. Ainda, Riera não colocou nenhuma explicação sobre os retratos, nem sequer os nomes das obras. Somos informados pela curadora que os modelos pertencentes às obras são pessoas muito próximas da artista, mas não se sabe qual relação elas têm com a Mariana. Isso me intrigou.

Uma observação técnica dos retratos da artista é que a cor branca não é inativa, como na maioria das obras artísticas, mas atuante nos desenhos porque as fontes não estão no meio do retrato, mas do centro para a extremidade. O tom esbranquiçado está na maior parte da obra. Essa característica mostra que Mariana não levou em consideração a “verticalidade” das obras. Além disso, a desenhista usa a técnica em pastel seco para fazer a sua arte. Segundo a curadora Marilice, a artista recolhe e guarda o pó que cai do chão durante o processo do desenho: “Estes ‘restos’ não são descartados, mas utilizados na criação de novos desenhos. Aqui nada se perde, tudo se transforma em representação, em presença.”

De toda a exposição de Mariana Riera, a obra que mais me chamou a atenção é da modelo que tem o nome de Letícia – esse nome foi mencionado pela curadora –. Não se sabe qual a relação que a fonte tem com a autora, mas ela é desenhada com muitos detalhes e traços específicos. Para mostrar a idade da modelo, por exemplo, Riera faz questão de destacar as “expressões do tempo” – as chamadas rugas – embaixo do nariz, que passa na bochecha ao lado dos lábios e termina antes de chegar ao queixo, e também traça aquelas que têm ao lado dos olhos. Ainda, a artista desenha as veias saltadas da mão e as pintas que dão aspecto de envelhecimento. É uma demonstração de maturidade dessa mulher. Porém, o que mais aparece no aspecto físico de Letícia é o olhar inexpressivo e a forma arredondada dos olhos da mulher, que é grande e de cor esverdeada. Embaixo desse olhar estão as olheiras escuras e profundas, e em cima, as sobrancelhas pretas e finas, de um desenho bem-acabado. Vale mencionar a blusa de crochê cinza de Letícia que tem um aspecto amassado, e o seu cabelo, caindo sob os ombros à blusa, é de tom castanho com fios brancos, vermelhos e amarelos.

Mariana quer mostrar ao espectador que a obra “Letícia” vai além do campo visual do público. A artista desenha um pequeno espelho redondo na mão esquerda da fonte e, da posição do objeto, é possível ver a parte lateral do rosto dela, como a orelha, a pele e um pouco do cabelo. Letícia aperta o espelhinho com força, pois o dedo polegar está sendo profundamente apertado por causa da pele inchada e branqueada. E então vêm as perguntas sobre o contexto do retrato: Por que essa mulher está com um espelho? E porque ela não posicionou o objeto à frente do seu rosto? Sabemos que a artista queria usar o espelho para mostrar outro ângulo da modelo Letícia, mas não se sabe o porquê dela estar segurando esse específico objeto.

O mais interessante da arte é que o autor, que é por natureza profundo e misterioso, tem uma explicação para a criação e a finalidade de suas obras – ou talvez não. Serve a nós, espectadores, porém, ter as nossas próprias concepções sobre elas. O artista faz a obra e nós a usufruímos. Letícia é a mãe de Mariana Riera? Não se sabe a resposta. O propósito de Riera, possivelmente, não era de explicar os retratos, mas de deixar o público entender da sua maneira. Agora, cabe a você ir até lá e tirar as suas próprias conclusões.
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