As asas parecem estar acopladas nas costas de Matheus Simões Pires, o criador da Mutta Shoes. Mutta, segundo Matheus, vem da palavra mutação, que sugere mudança. Matheus vive alçando grandes voos e, apesar de já ter "caído" muitas vezes, afirma não ter medo de arriscar. Ele diz que "o maior desafio é começar, é dar o primeiro passo". Complementando seu raciocínio, ele profere uma frase que faz sentido não só para a existência da sua marca de calçados, a Mutta Shoes, mas também para o seu jeito de ser. "Até a águia precisa de um empurrãozinho para voar", disse, em uma tarde ensolarada, no movimentado portão de saída do Campus da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em Porto Alegre.  Em um ano e meio de existência da marca, Matheus voou tão alto que já conquistou o mercado norte americano, asiático e frequenta feiras de calçados internacionais, como a Sneakerness.

Quem lhe deu o empurrãozinho que faltava foi a mãe, que lhe tirou da cama cedo certo dia e, juntos, partiram em busca de fábricas de calçados em Novo Hamburgo. Matheus queria produzir vários tênis, mas o medo era seu grande oponente. "Eu tinha vergonha de falar com as pessoas, vergonha de ligar para os fornecedores, tinha muito medo. Então, nesse primeiro dia, me lembro de estar deitado na minha cama de manhã, tendo que acordar para ir fazer isso. Eu me lembro do medo que eu sentia. Acho que eu pagaria um milhão de reais para poder ficar em casa naquele dia e não sair", revela. Mas hoje, reconhece que valeu todo o esforço feito. "Eu tinha tanto medo, estava com um sentimento tão ruim, que eu enfrentei e trouxe uma coisa tão boa, que hoje praticamente é a minha vida e é o meu futuro inteiro. Tudo o que a gente não conhece, nós temos muito medo, mas às vezes a gente se joga e acontece isso", reflete.

Ele é jovem, empreendedor e, acima de tudo, inovador e criativo. Tem 23 anos e está no sexto semestre de Design de Produto na UFRGS. A sua relação com os calçados começou em Novo Hamburgo, aos sábados, em um curso de modelagem do SENAI. "Eu não estava trabalhando porque não tinha um portfólio e as empresas criativas só contratam as pessoas que tem portfólios legais. Eu vi que o único jeito de ir atrás e buscar uma área que eu iria curtir seria fazer alguns cursos nas coisas que eu curtia", comentou, logo após beber um gole de água da garrafa que estava sobre a sua mesa. Matheus também fez outros cursos de sua área de interesse, como cinema e fotografia. Depois de finalizado o curso de modelagem de calçados, surgiu um questionamento. "Já que eu conhecia algumas fábricas, por que não tentar fazer uma amostra pra mim?", se perguntou.  

Mas não foi tão fácil. Matheus conhecia as fábricas que produziam calçados em larga escala e foi bater à porta delas para fazer o seu primeiro tênis. As respostas eram, na maioria das vezes, negativas. "Elas nunca vão querer fazer um par de tênis pra mim porque eles não vão ter lucro e o trabalho que eles vão passar fazendo não vai compensar. Então, eu recebi muita porta fechada, ninguém queria fazer porque eu não tinha uma marca", lamentou. Mesmo com as respostas negativas e desestimuladoras, Matheus não desistiu do seu projeto de fazer um tênis para uso próprio.

Foi aí, na perseverança, que descobriu os artesões. O criador da Mutta Shoes explica que os artesões são responsáveis por fazer amostras de calçados, que são os pés dos calçados que são usados como modelo de apresentação aos empresários e diretores das empresas do ramo calçadista. "Esse par, como é uma amostra, vai representar uma linha da coleção, então ele tem que ser o mais perfeito possível", destacou. Matheus não perde a oportunidade de elogiar a qualidade do trabalho exercido pelos artesões que fazem esses tipos de calçado e ressalta também que essa qualidade na produção era o que estava procurando para a Mutta Shoes. "Eles fazem os calçados com mais cuidados, com mais atenção e eles têm mais tempo. Então, esses caras têm todas as características do calçado que eu estava buscando, que é um calçado com uma qualidade melhor, com um cuidado, com um acabamento melhor. Como eles fazem um de cada vez, eles são autônomos e decidiram fazer para mim este primeiro par", comemorou.

Movimentando as mãos e os braços, Matheus demonstra qual foi a reação que teve ao ver o seu primeiro par de tênis pronto. "Eu curti, fiquei super emocionado, quase chorei, ao ter o meu primeiro tênis", brincou. Mas surgiu outro desafio. "Mas ele não estava bom. Eu vi logo questões que eu poderia alterar", afirmou. Matheus comenta que a cada tênis novo que fazia, ia se aprimorando e, segundo ele, a qualidade dos produtos aumentava.

Ao ir diversas vezes para Novo Hamburgo, Matheus descobriu, por indicação dos artesões, locais onde encontrara as mais diversas qualidades e estampas de couro e tecidos para a produção dos calçados. Ele relembra uma situação que passou ao encontrar uma estampa, até então, inusitada. "Até que um dia eu fui num lugar desses e achei um couro que era tipo uma estampa de girafa. E decidi fazer um par pra mim e com pelo ainda. Eu fiz esse par, ficou 'muito louco' e me lembro que o primeiro dia que eu vim com ele pra faculdade, usando esse tênis, eu estava muito nervoso, porque, pô, o que as pessoas vão pensar? Porque era o primeiro tênis que eu tinha feito que era muito diferente. E quando eu fiz esse, vi que todo mundo olhava. Todo mundo comentava", relembra, aos risos. Ele ressalta que foi com o tênis com estampa de girafa que as pessoas diziam para ele "faz um pra mim, eu quero um assim".

Segundo Matheus, a partir dessa situação inusitada é que surgiu a Mutta Shoes. Ele percebeu que tinha a possibilidade de abrir um nicho de mercado e se desenvolver, para que suas ideias criativas traduzissem a sua essência. "Eu vou pela contramão. Tudo o que as marcas grandes não fazem, tanto design quanto qualidade e atendimento ao consumidor, vou dirigir a minha marca por isso. Foi ai que eu comecei a ver a necessidade de tanto que eu tinha como todas as pessoas criativas têm, que é de ter um produto customizado e personalizado e que tenha a cara dele", explicou.

Matheus dá a possibilidade de seus clientes comprarem os modelos de tênis já prontos e disponíveis no e-commerce ou então, praticarem uma colaboração criativa. A colaboração criativa é uma parceria do cliente com o designer que, juntos, desenvolvem um tênis com os materiais adequados de preferência do cliente e o conhecimento técnico e funcional do designer. O prazo de entrega dos tênis criados na colaboração criativa é de 30 dias e os disponíveis no e-commerce é de 15 dias.

Apesar de hoje Matheus ser o coordenador da empresa e ter, ao total, 4 pessoas diretamente ligadas a sua equipe e aproximadamente 10 artesões que fazem trabalhos terceirizados, no início ele também fazia e participava da produção dos tênis. "No começo aprendi a fazer todas as etapas de produção, eu aprendi a costurar, aprendi a cortar e no início, como a nossa produção era bem baixa, que eu fazia só pra mim e pros meus amigos, fazia muitas partes dessa produção. Mas, depois de um tempo, crescendo a demanda, eu vi que se eu ficasse trancado na produção eu não ia conseguir ter energia para fazer a marca crescer", comentou.

A marca foi criada no início de 2012 e, rapidamente, ficou conhecida principalmente na internet. Matheus conta que gosta muito de pesquisar e acessa vários blogs de moda, e, sabendo o contato das pessoas, ele mesmo fez o trabalho de divulgação na marca. O interesse das pessoas pelos calçados foi tão grande que em julho de 2012, seis meses após o surgimento da Mutta, Matheus estava na feira de calçados "Sneakerness", na Suíça, representando a marca. "A partir do momento que eu fui lá pra fora, que estava me expondo, fisicamente, não virtualmente, já fiz vários contatos e isso aí já começou a me gerar uma rede de contatos internacionais", observou. Um dos projetos que estão em andamento para a Mutta Shoes é a parceria com lojas de Nova Iorque e Ásia para a venda dos seus produtos. Mas Matheus ressalta que a marca vai continuar com o mesmo DNA: produção em baixa escala e produtos de qualidade.

Mas até alcançar o mercado norte-americano e asiático, Matheus reconhece que não foi fácil. Entretanto, a "caçada" como águia está valendo a pena. "Eu vi que tentar coisas diferentes dá muito certo, mas nunca é da primeira vez. Acho que a gente só conseguiu fazer um tênis bom porque eu errei, fiz todos os erros possíveis. Mas nós passamos por todos os erros possíveis até que cada erro fez a gente mudar alguma coisa e melhorar, até chegar em um produto que tu consegues ver e dizer que é de uma qualidade melhor que qualquer outro tênis que tenha no mercado", disse, ao tomar o que restava da sua água com gás.

Matheus sentiu na pele o diferencial de um produto de qualidade. "Se usava material ruim, eu sentia dor no pé. Então eu fui alterando e eu mesmo conseguia ser o meu consumidor teste pra ver o que seria um material bom", explicou. Esse aprendizado lhe gerou um resultado. "Vi que, quanto mais couro tu usares, mais qualidade tu tens", destacou. Os calçados Mutta são feitos de borracha natural no solado, couro de porco na parte interna e couro de vaca na parte externa do tênis.

Ao participar das feiras internacionais de calçados, Matheus teve outra percepção: deveria expandir a área de atuação da sua empresa. Atualmente, a Mutta Shoes está em processo de criação de uma coleção de carteiras e mochilas, além dos já conhecidos tênis. Outra novidade é o estagiário Tim, que a marca mantém em Amsterdã, na Holanda. Com projetos de internacionalização, Matheus revela como deseja que a Mutta Shoes seja vista no mundo. "Quando o cara pensar em Brasil e em cool – em tradução livre quer dizer legal, descolado -, vai surgir a Mutta. Eu quero que a gente represente o Brasil em projetos fodas", almeja.

A águia que, no início, precisou de um empurrãozinho, hoje já não precisa mais. Ela está em constante metamorfose, evoluindo sempre. Vamos aguardar quais vão ser as novas pegadas que os tênis Mutta, do jovem de fala rápida, vão traçar na história da moda. Enquanto isso, a águia está pronta para alçar voos cada vez mais altos.
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