Narciso se preparava para dormir. Tinha escovado os dentes, tirado cada fiapo de frango com fio dental e até já vestia seu pequeno short vexatório da Adidas, um short meio "boca de sino", deixando metade da coxa à vista, um resquício que, nos anos 1980, as pessoas tinham coragem de usar na rua para correr, em público, sem nenhum tipo de constrangimento. Contudo, mesmo já devidamente uniformizado e higienizado para o sono, resolveu dar uma última olhada nos canais da TV. Em quase todos, o assunto ainda era o mesmo: dezenas de jovens mortos numa boate por causa de um incêndio. A notícia havia rodado o país inteiro e, desde as primeiras horas do dia, era o tema principal das conversas nas refeições, nas salas de espera de consultórios, nas lanchonetes, nos ônibus, nas escolas, nas casas de strip-tease e nas filas de mercearias. Narciso não se incomodou com a ausência de variedade na programação, embora preferisse assistir a outra coisa. Ele sabia que a repercussão é importante nesses casos, ajuda a evitar que tragédias como essas se repitam. E foi naquele momento – não mais em choque, numa análise racional sobre a importância do alarde midiático, apertando o botão dos canais com dedos robóticos, sem demonstrar sequer uma contração de cenho, consternada – que surgiu o homem. O maldito e lúgubre invasor, o mais inconveniente dos inquilinos, a presença mais desconfortante e, ao mesmo tempo, a mais tentadora. 

– Calma! Até parece que não está acostumado com minhas visitas repentinas! E aí, como andam as coisas? – disse o sujeito em resposta ao salto quase felino de seu anfitrião surpreendido.

– Desgraçado! Um dia vai me explicar como consegue entrar aqui, estou cansado disso! Já coloquei cerca elétrica em todos esses muros e você continua aparecendo nessa varanda, quase me causando um infarto. O que quer? São quase uma da manhã.

– Você sabe que eu só venho aqui pra te ajudar, meu garoto. Tenho sido um grande amigo. – disse, sereno, exigindo gratidão com sutileza e cordialidade. 

– Eu sei, me desculpe, mas tente me avisar antes de vir aqui ou de falar qualquer coisa num momento de extremo silêncio, quando eu aparento estar sozinho. Isso me mata.

– Sim, isso te mata. E não há nada mais eficiente para ressuscitar um homem do que a morte, não é? - fez essa última indagação olhando as cenas do incêndio, na TV. 

Por uns segundos, ambos entregaram-se à reportagem já repetida pela quarta vez no dia, só naquele canal. Enquanto Narciso questionava a mente de seu visitante, em silêncio monástico, o inusitado cavalheiro apenas assistia à sequência de imagens trágicas com um fulgor estático nos olhos, que, como uma explosão, mesmo impenetrável – censura decorrente da efemeridade do fenômeno, assim como de sua desordem natural –, permitia ao observador ter ideia da mágica microscópica que ali ocorria, ao deixar transparecer, vez ou outra, algum vulto multicor, que, por si só, já alimentava e assassinava todo o desejo de espetáculo, por semear conjecturas assustadoras da ideia colossal da qual ele surgira. 

– Narciso, você sabe no que eu penso quando vejo isso? – sem tirar os olhos da tela, o invasor rompeu a calmaria da pequena digressão.

– Não...

– Eu penso no quanto essa gente precisa saber. 

– Saber o quê?

– Que você lamenta.

– Os mortos?

– Não, os vivos.

– Por que eles precisam saber?

– Narciso – após uma pausa pedagógica, com o fim de que o pupilo tivesse tempo para iniciar um esforço de raciocínio ou somente para resgatar a atenção, o homem prosseguiu – esses jovens morreram, mas você está vivo! Mais vivo do que nunca! Mais vivo do que ontem, antes de ter a morte esfregada no seu rosto por centenas de câmeras e ângulos de corpos jogados no chão! Mais vivo por ter suas pupilas dilatadas hoje cedo quando foi fazer a barba e, ouvindo o rádio, soube da notícia. Mais vivo por ter sofrido a dor do outro, por ter aberto passagem à desolação, por uns segundos, como um milionário entediado que recebe em sua mansão um chefe de uma tribo aborígene da Micronésia apenas para apreciar seu exotismo e preencher, com pequenos relâmpagos, seu peito murcho! Você se compadeceu, seus olhos marejaram, você quis se sentir motivado a ajudar, você quis ver os responsáveis presos, você sentiu o que deveria ser sentido e todos precisam saber disso! Eles necessitam dessa sinergia e você sabe do que falo, meu amigo. Você expõe o que há de mais terno em seu interior e, assim, eles se reconhecem em seu âmago, percebem a satisfação das expectativas e te saúdam. Não será difícil dizer, eles já estão comovidos. Vamos, Narciso, só umas palavras.

– Olha, eu não sou um bom orador...

– Eles precisam te ouvir.

– Mas eu não vou dizer nada além do que está sendo dito...eu vou dizer o óbvio, o usual...

– E, por isso, eles te amarão. Agora diga, Narciso, vá!

– Espera aí! Por quê? Por que se já existem várias pessoas fazendo a mesma coisa?

– Elas estão sendo amadas, Narciso, e você está aí com um shortinho boca de sino da Adidas...

– Chega! Eu me cansei dessas ordens ridículas! Quem é você pra entrar aqui e querer me domar como um cavalo? Todos lá já sabem o quanto eu, implicitamente, lamento. Todos sabem que eu não sou um sociopata, é claro que eu achei tudo isso muito triste e...

 – Narciso, seu idiota! Você não percebe que isso não basta? De que adianta chorar se suas lágrimas não banharão uma plateia ávida por drama, ávida por se mostrar cândida e magnânima? De que adianta gemer ao mundo se a dor não ecoar como um aplauso fraternal e afagador? 

– Mas isso é nojento! Minha comoção não tem "finalidades", eu não me comovo por "recompensas" sociais. Simplesmente sinto.

Uma gargalhada constrangedora, seguida de um tapa exagerado no braço do sofá, acabou com a áurea sensível que envolvera a declaração do dono da casa, trazendo, imediatamente, um suave rubor em suas bochechas. 

– Narciso, você é uma figura! Agora só me faltava essa...quer me enrolar! Justo eu, que estou direto aqui contigo! Ai, ai... Anda logo, diz pra eles.

Num dilema entre o orgulho e a obediência, o rapaz hesitou por uns instantes, com um incômodo e ira notórios. Seu hóspede momentâneo, esbanjando o sarcasmo do vitorioso, ergueu as sobrancelhas e apontou com os olhos para o computador, ainda ligado, que repousava sobre a mesa da sala. Narciso se levantou sem encarar o sujeito e foi direto à máquina. 

Não vale a pena, aqui, transcrever o pequeno texto de sete linhas, escrito em poucos minutos e muitos chavões, feito por nosso egrégio protagonista; não muito pelo espaço, visto que não estou preocupado com o tamanho da história, mas, sim, pela vasta fonte de consulta que já se encontra em nossas redes sociais, e que os senhores podem facilmente explorar caso tenham curiosidade em ler as palavras do rapaz. 

– Ótimo, Narciso... Veja! Olha só quanta gente maravilhada! Isso é lindo, é quase sexo grupal na piscina funesta da consternação coletiva! E você é o "bem dotado" da vez, olha lá! – neste momento, uma pequena aba virtual se arremessou, na tela, qual um sinalizador, exibindo um comentário altamente emotivo, exaltando o discurso de Narciso. 

– É, verdade... – nosso orador instantâneo apenas contemplava os fogos de artifício pós-modernos – jogando aos céus de plasma caracteres reluzentes, ígneos de um vazio histérico –, estampando um sorriso tolo e imóvel. 

– Bem, meu querido, acho que é isso aí, meu dever foi cumprido. Agora já está muito tarde, vou embora. Amanhã talvez eu volte, dependendo do que você for servir no almoço. Boa noite, meu caro!

O jovem, ainda admirando as saudações digitais, demorou uns segundos para notar a despedida de seu velho inquilino e, quando se virou para tentar convidá-lo a ficar mais um pouco, não havia mais ninguém na sala. Bem, havia, sim, alguém. Na porta de vidro da varanda, por onde o conselheiro da noite entrara, estava o reflexo de Narciso, com uma expressão imbecil de dúvida, surpresa e, quem diria?!, vergonha.

 

Gabriel Couto Díaz, 01/02/2013

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