O Jornalismo Cultural, escrito por Daniel Piza e publicado pela editora Contexto, traz ao mercado um resumo do que está acontecendo com os Segundos Cadernos no Brasil. Segundo Piza, devido à precária educação e ao declínio econômico, a qualidade dos textos e conteúdos dos jornalistas culturais estão empobrecidos. Com uma linguagem simples e acessível, o autor constrói uma obra literária para levantar uma nova geração de jornalistas mais preparados para o mercado cultural, a fim de que este seja mais sério, aprofundado, detalhista e encorajador para a sociedade leitora.

Daniel Piza começa o livro contando a história do jornalismo cultural. Apegando-se a uma seleção pessoal, Piza escolhe a fundação da revista The Spectator (1711) para a gênese desse tipo jornalístico. Os criadores da revisa eram dois ensaístas ingleses chamados Richard Steele e Joseph Addison, que tiveram como finalidade tirar a filosofia dos gabinetes e bibliotecas, escolas e faculdades, e levar para clubes e assembleias, casas de chá e cafés. E assim foi feito. Com a influência do humanismo,The Spectator influenciou a sociedade inglesa do século XVIII, trazendo a ideia de que o homem da cidade era moderno, preocupado com modas, com a saúde do corpo e da mente, e era também superior no que diz respeito ao seu comportamento e à política. Surgia, então, um jornalismo voltado às artes, à literatura, ao teatro e à música.

A partir do século XIX, o jornalismo cultural atravessou o Atlântico para ser desenvolvido nos Estados Unidos e no Brasil. Estavam em destaque profissional nesse período Henry James, Machado de Assis, José Veríssimo, Émile Zola, George Bernard Shaw e Karl Kraus. Esses e outros escritores marcaram um século de aperfeiçoamento dessa nova carreira jornalística, acompanhado com um toque de espiritualidade, erudição, reflexividade e ironia. Já no século XX, o elemento mais marcante foi a crítica, exercida, sobretudo, na segunda metade do século pela revista New Yorker, Spectator eEsquire, entre outros. No Brasil, a crítica em jornais começou nos anos 40 - quem fazia os papéis de jornalistas eram Álvaro Lis, Oto Maria Carpeaux, Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda. 

O jornalismo cultural, no início do século XXI, não é mais o mesmo. Segundo Daniel, as revistas culturas e intelectuais não têm a mesma influência na sociedade que os séculos passados. A crítica está superficial e limitada em bom, muito bom, excelente ou ruim; celebridades e baixa qualidade de avaliação de produtos são temas que se tornaram frequentes nos jornais e revistas; desencorajamento em escrever sobre obras que são de qualidade e menos conhecidas, as que não pertencem à massa. Além disso, os Segundos Cadernos precisam escapar das oposições, como elitismo e populismo, variedades e erudições, nacional e internacional. É necessário um equilíbrio entre esses temas: nutrir da expansão de horizontes do conhecimento, conhecer as diferentes culturas estrangeiras, sem esquecer, da nacional.

O jornalista, Daniel Piza, escreve sobre a relevância de um bom crítico cultural. Segundo ele, os verdadeiros profissionais não são aqueles que querem encontrar falhas onde não existem; que fazem críticas negativas contra o artista ou o escritor por vingança pessoal. É preciso ser profissional, e não ter medo, porém, de apontar críticas ao indivíduo se existir. Ainda, a formação cultural, o domínio de uma língua estrangeira e o estudo das boas críticas são requisitos do jornalista cultural. E, ao lado da crítica, a reportagem diz respeito à agenda de lançamentos e eventos, como livros, shows e exposições. Seu objetivo é trazer uma novidade ao leitor, uma tendência ou um debate no meio cultural. Os modelos de repórteres bem sucedidos são Ruy Castro e Sergio Augusto. 


E quais são os assuntos mais frequentes dos Segundos Cadernos? São a música, literatura, artes plásticas, moda e arquitetura. É preciso, hoje, no século XXI, orientar e incomodar os leitores, trazer novos repertórios, que fogem ao comum, para a criação de uma sociedade que é livre para criticar, que conhece obras literárias e artísticas de qualidade, sabe das tendências arquitetônicas e sabe avaliar um filme, por exemplo. O jornalismo cultural, em suma, tem a oportunidade de formar leitores mais independentes e conhecedores de mundo.

Ao mesmo tempo em que Piza orienta as exigências do jornalista cultural, ele informa aos seus leitores sobre o perfil desse profissional, como a sua reputação no mercado e o seu estilo de vida. Em um subtítulo do capítulo três chamado A Enganosa Doce Vida, o autor caracteriza o profissional como tendo um temperamento forte e equilibrado, que não se deixa seduzir pelos benefícios da carreira, como presentes dos donos de exposições e diretores de arte – que querem, na verdade, receber boas críticas no jornal –. Ainda, Daniel diz que um jornalista cultural precisa ser um estudioso, um autodidata para que saiba um pouco de cada área artística. E, analisando se os profissionais realmente se empenhavam para buscar a intelectualidade e a ética, afirma: as equipes – de redação – têm menos repertório e ambição e trocam a exigência pela complacência e o charme pela previsibilidade. E o resultado disso é certo: diminuição sensível na pluralidade e criatividade do profissional.

E é claro que Daniel Piza exemplificaria no seu livro O jornalismo cultural uma aventura profissional que passara após ter relatado nessa obra uma resenha sobre a história e os autores, além de dicas para uma boa resenha, crítica e perfil. Ele precisou mostrar que, além de um bom teórico, ele é um bom jornalista de cultura. Pois bem, o trabalho foi feito em 1997 para o jornal Fim de Semana sobre as pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara, no sul do Piauí. Ele teve esta ideia de reportagem quando viu uma notinha em uma revista sobre essas pinturas localizadas no Parque. E a sua justificativa: reportagens que envolvem viagem e a descoberta de um mundo diferente são, claro, as mais fascinantes para um jornalista cultural. Após ter apresentado o tema para a direção do jornal, convidar o fotógrafo Juan Esteves para trabalhar com ele e ter marcado a data da visita com a antropóloga Niéde Guidon, Piza começou a se preparar para a viagem através de estudos em livros. O repórter cultural passou quatro dias lá e, à medida que ele vivenciava o interior do Piauí, o assunto da matéria foi sendo modificado: ele faria o trabalho inspirado na obra Sertões, de Euclides da Cunha, em que o texto se dividiria em terra, o homem e a luta. Quando foi publicada, a matéria do Segundo Caderno teve uma grande repercussão. Como se tratava de uma denúncia social, até um senador telefonou para Niéde com a promessa de ajudar a amparar o Parque. Daniel Piza concluiu que o jornalismo cultural deve ser levado mais a sério, pois tem a oportunidade de ajudar a sociedade desde o maior conhecimento cultural até mudanças sociais e locais.

Portanto, o livro Jornalismo Cultural, do jornalista Daniel Piza, é uma síntese preparatória para instruir estudantes e leitores interessados a compreender melhor sobre esse tipo jornalístico, que carrega, ao mesmo tempo, uma linha do tempo grandiosa com autores muito conhecidos no jornalismo, sobretudo na literatura, e uma imaturidade e descaso de profissionais brasileiros. Além de auxiliar com a técnica do texto cultural, dando dicas para ser um bom jornalista nessa área, Piza alerta os problemas visíveis dos Segundos Cadernos dos jornais e revistas: o medo de divulgar obras pouco conhecidas, a manifestação de celebridades e de suas vidas que nada contribuem para o crescimento intelectual e crítico, e também a comodidade da agenda. A nova geração de jornalistas que está entrando para o mercado cultural precisa ler essa literatura que capacita e alerta para a realidade profissional no Brasil.
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