Perfil jornalístico de Ageu Sérgio da Silva


Escorado sobre o corrimão da escada que leva ao estacionamento do Nacional de Teresópolis, situado ao sudoeste da cidade, está Ageu Sérgio da Silva – um tipo estranho e magro, de boné “aba reta”, calça jeans, chinelos e camiseta listrada, com um estrabismo desconcertante e um autoritário e volumoso bigode multicor projetando fios negros, brancos e dourados. Por muito tempo, eu, frequentador do supermercado, acreditei que aquele senhor aparentemente ranzinza fosse uma espécie de totem do local, pois estava sempre em posição vigilante, nos mesmos pontos: no pé da rampa que leva ao interior do Nacional, escorado, ou sentado sobre um banco solitário, lá dentro, perto de uma lavanderia. Jamais o vi sorrir ou exibir alguma expressão que não denotasse irritação ou seriedade repelentes. Tanto é que pensei várias vezes se esse seria mesmo o meu entrevistado... No caso, a curiosidade acabou vencendo a catadura grave de Ageu, e lá fui conhecê-lo. 

Seu olhar ficou dez vezes mais amedrontador e irritadiço quando me dirigi ao seu encontro, apresentando-me como aluno de Jornalismo, a ponto de quase desistir, dizendo que tinha me enganado e indo embora em seguida. Quando expliquei minha razão de querer entrevistá-lo, ressaltando que a proposta era traçar um perfil de alguém que costumo ver, mas conheço pouco, ele logo se mostrou receoso e defensivo. “Eu só venho aqui pra negociar. Só isso...” Alguns segundos de insistência foram precisos até que Ageu percebesse que não se tratava de suspeita em relação às suas ocupações nas redondezas do Nacional ou algo assim. Durante esse pequeno período de quebra de gelo, acabei reparando em detalhes que passavam despercebidos: jamais tinha notado, talvez pela sombra constante do boné sobre seus olhos e pelo estrabismo acentuado, que suas íris eram escandalosamente azuis, imersas em duas amareladas escleras, cheias de rabiscos enevoados de vasos vermelhos. Disse-me o nome, a idade, 56 anos, e onde tinha nascido, São Pedro do Sul, de onde trazia o destacado e manso sotaque interiorano. “Lá não era bom, não tinha nada, não tinha serviço... Agora começou a ficar bom.” Nos primeiros minutos, seu profundo apreço pelo trabalho já começa a ser exposto – o que, ao longo de toda a conversa, foi apontado inúmeras vezes. A obsessão por atividades de qualquer natureza laboral e pelo acúmulo de dinheiro eram a razão de viver daquele homem, a verdadeira encarnação gauchesca da ética protestante norte-americana, esmiuçada por Max Weber. “Eu empresto dinheiro, negocio, trabalho como carpinteiro, vigio carro à noite aqui no Piú Buona (restaurante do bairro)... Cato latinha também...” Quando me mostrei surpreso, precisamente, na parte das latinhas, já que se trata de um senhor de quem não se supõe tanta disposição física, ele interveio, interpretando a surpresa de outra forma: “Isso dá dinheiro, sabia? O problema é que as pessoas não sabem usar esse dinheiro. Compram droga, compram crack...” Seu desprezo pela epidemia de crack na cidade, a “pedra”, fazia questão de tornar explícito: “Isso aí acabou com Porto Alegre! Há dez anos atrás era melhor, mas de cinco anos pra cá piorou tudo!” Aqui, dois moradores de bairro relativamente suburbano (Ageu é meu vizinho de rua, descobri no fim da entrevista) se entendiam. Lamuriamos sobre a agonia da hipervigilância, sempre presente, quando saímos à rua e, quando o lamento ganhou tom mais revoltoso, Ageu fez uma ode à pena de morte. Mostrei-me curioso sobre seu ponto de vista, que veio, em seguida, acrescido de alguns argumentos depois das provocações que fiz sobre o assunto: “Porque hoje o bandido dorme na cadeia e amanhã tá solto! Se o governo fizesse mais cadeia, prendesse mesmo bandido e não ficasse só roubando...” A pena de morte lhe era uma espécie de última esperança diante da ineficiência do judiciário e do poder público em geral, ao que parecia. 

O homem de braços brancos e busto vermelho, enrugado, quase morrera por três vezes. “Eu bebia muito, fumava, farreava... Hoje eu não bebo, não fumo, não jogo...aí sempre tenho dinheiro.” Ressentia seus tempos libertinos de jovem, mas sempre arrematava a culpa esbanjando a austera e abstêmia vida que levava agora. Da juventude, herdara apenas a grave cirrose, garantia. Semelhava-se que a intolerância com dependentes químicos provinha de sua própria experiência, porquanto tivesse vencido o vício sem ajuda de ninguém, sem a piedade do Estado ou da sociedade. “Isso aí não merece ajuda, eu ia ajudar quem não tem meio, quem não tem conserto” – declarou, curiosamente, quando foi perguntado sobre o que faria se ficasse milionário. Ageu, o acumulador compulsivo de dinheiro, manteria a mesma vida que levava: sem filhos, sem mulher, sem bens de luxo, no mesmo bairro, na mesma casa. “Eu ajudaria os pobres, aqueles sem meio.” – reiterava. “Eu até gosto de ser meio molambento, que aí não chama atenção...” Um outro senhor, gordo, de óculos escuros e camiseta regata, passou por nós e falou algo a respeito de mil reais que seriam emprestados. Pelo visto, isso gerou uma quebra de expectativa, pois Ageu tinha entendido que essa quantia seria emprestada por ele, e não a ele, como dissera o intrometido. O senhor seguiu lentamente em direção ao obscuro estacionamento, descendo as escadas, e Ageu o seguiu, falando calmo e convincentemente, em tom negociador, deixando-me como se eu já nem estivesse ali. Esperei por uns cinco minutos e ele voltou, tagarelando sobre seu colega de agiotagem de rua, que era ex-motorista de ônibus, aposentado pela Carris – para ele, valia a pena emprestar dinheiro, tinha trocado de carro recentemente, esse tinha como pagar depois, explicava o entrevistado. Perguntei como ele agia perante os eventuais caloteiros. “Não tem violência, mas esse aí nunca mais vê a cor do dinheiro. E eu não empresto pra desconhecido, empresto no máximo cinquenta reais, às vezes...” O senhor voltou para lhe dizer algo e, percebendo a entrevista, disse para que eu continuasse, que não atrapalharia mais. “Mas ele já tá acabando.” – acrescentou Ageu com uma impaciência sutil, em presença de uma irresoluta oportunidade de negócio. 

A juventude atual era um desastre completo, segundo dizia, movendo-se com inquietude de um lado para o outro, e se aproximando bastante de mim quando engatilhava mais uma frase. “Eles não respeitam os mais velhos... Agora que tiraram a lei de respeitar os mais velhos, aí piorou tudo...” Antes que eu perguntasse qual era a tal lei, ele me apontou um jovem negro, vestido à “hip hop”, que tinha acabado de sair do supermercado. “Esse aí tem mulher, tem filho e usa crack. É vagabundo... Mora ali naquela casa velha, em frente à ferragem, ali na Carvalho de Freitas (nossa rua).” Na tentativa de lhe arrancar algo mais íntimo e inesperado, perguntei-lhe sobre seus sonhos. “Não tenho nenhum. Meu sonho mesmo é ter dinheiro, saúde...” De novo o bendito dinheiro! Ainda não digerindo muito a motivação de toda sua ambição, a caridade, perguntei-lhe se, então, levando em conta o que tinha me dito antes, o dinheiro, para ele, era apenas uma ferramenta, um meio de ajudar os necessitados, e não um fim em si mesmo. “O dinheiro é para ajudar os outros e porque eu preciso comer também... Não tenho geladeira, não tenho fogão, só uma televisão. Como em restaurante.” Aproveitando o assunto, mencionou pela segunda vez que iria entrar e comprar alguma coisa para comer, cautelosamente, para que a pressão e a pressa suscitados não fossem rudes demais. Quis saber, por último, qual era seu maior medo. “Medo? Eu não tenho medo.” – era a mais caricata figura de um caubói, bigodudo, mal encarado e com a feição obscurecida pela sombra de seu chapéu, parado no canto isolado do saloon, envolvido apenas pelo odor forte de suor ressecado. “Mas não existe nada que te faria se sentir angustiado, que você tentaria ao máximo evitar, a qualquer custo? Por exemplo, perder todo o seu dinheiro.” Ele riu – é assim que eu me refiro ao sorrateiro esgar que aparecia vez ou outra nos arredores de seu bigode – e respondeu: “Dinheiro eu nem tenho muito. Mas o problema é quem não é de Deus. Quem não tem fé em Deus nunca vai ter dinheiro! Nunca! Hoje, eu vou te falar, o pessoal falta vender até a alma... Nem se lembra de Deus.”

Só depois dessas declarações finais eu fui capaz de ter uma interpretação mais ou menos clara sobre a figura paradoxal que fareja dinheiro sem desejar uma vida de prazeres materiais: seu grande temor era não fruir da salvação divina, da redenção concedida àquele libertino arrependido. Como um autêntico desbravador do Oeste, herdeiro do espírito colonizador dos calvinos ingleses, ele esperava vislumbrar, após suas horas de esforço físico, mental e emocional, o tilintar angelical das moedas e o farfalhar das notas anunciando que aquele pobre homem era um bem-aventurado, e teria um privilegiado destino no além. Por fim, ele tornou a falar sobre o lanche que iria fazer e, deixando a inconveniência jornalística de lado, eu me despedi e agradeci pelo tempo. Quando virei as costas, para ir, ele voltou depois de dois passos, como sempre fazia quando ia dizer algo: afastava-se, indiferente, para depois voltar e declarar alguma coisa, incisivo. “Se você trabalhar, vai ter dinheiro.” Acenei positivamente, e, quando ele me deu as costas, virei-me de novo. “E meu problema é com o crack!” – voltou, num ímpeto, e logo estava no topo da rampa, desaparecendo entre os carrinhos, sacolas, braços, pernas e rostos. 


Gabriel Couto Díaz, 11/03/2014.

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