Sala de Aula

Uma das heranças deixadas pelo pai para o filho Marcelo foi o gosto pelo empreendedorismo. Com dez anos o garoto já sabia qual profissão seguiria e que teria a própria empresa. Para qualquer criança dessa idade, a escolha pela carreira é alterada a cada novo filme ou descoberta. Ele estava determinado. Escolhera a área da comunicação por gostar de cinema, mas não sabia que essa parte dos seus planos seria alterada por uma paixão. Não é paixão comum, tem a ver com sabor, aroma e refinamento. Ele que esperava aprender sobre a profissão em Nova York, foi parar em terras europeias sem saber muito bem por onde começar.

Quando iniciou a faculdade de publicidade e propaganda, no ano de 2008, foi surpreendido ao descobrir que as aulas que mais gostava eram as de marketing, mas como entender o comportamento das pessoas se não compreendia nem o próprio? Nesse momento ele percebeu que alguma coisa havia mudado. As notas começaram a baixar e a animação foi reduzida aos esforços mínimos para passar no semestre. Tudo foi reduzido. O conhecimento sobre o que até então era uma certeza e os projetos para o futuro pareceram se desmanchar aos poucos. Cada aula e início de semana eram um peso. Um peso que ele tentava carregar toda vez que lembrava os esforços de seus pais para pagar os custos do curso. Marcelo percebeu que isso não iria mudar e que dependia dele dar um rumo diferente para a situação. Chorar não resolvia e muito menos permanecer naquele sacrifício diário. A vida estava amarga.

Ele se lembrou dos sonhos de criança e da vontade de ter sua empresa. Sabia que cinema já não era mais parte disso, mas ao mesmo tempo não sabia o que seria o melhor. Fugir. Fugir da rotina, dos hábitos e do conhecido. Fome de culturas e novas experiências, que depois veio a descobrir que não era fome, era sede. Essas ideias foram aquecidas com o convite do seu amigo e xará Marcelo N. Ter um conhecido em Londres, as despesas com moradia cortadas e a emergência de significados para suas emoções foram a deixa final para ele decidir viajar por um ano.

A primavera estava se instalando em Londres, assim como Marcelo. Os dias eram mais longos e a cidade acordava de um gélido inverno. Nos primeiros dias da viagem ele foi até a estação Euston, onde sua paixão o esperava secretamente. Não foi amor à primeira vista, talvez tenha sido encanto. Ele se encontrava na cafeteria da rede Costa Coffee com o amigo que trabalhava lá e queria apresentar o local para o guri de Porto Alegre. O mistério teve fim. O café o conquistou e a cafeteria, dentro da estação de trem da cidade, foi onde ele passou horas auxiliando o amigo barista. Ele não podia trabalhar por causa do visto, mas isso não o impediu de passar dias inteiros achando o que fazer dentro do local. Organizou, limpou e acompanhou a preparação dos cafés. Gostou tanto que passou a estudar os manuais de funcionários do lugar e buscar por mais informações sobre o assunto.

O tempo passava e o fascínio pela bebida aumentava. Marcelo matava sua sede de autoconhecimento à medida em que descobria o café, o grão e todo processo até a degustação. A viagem agora tinha um objetivo definido e ele sabia que estava na direção certa. Ele passou a visitar o maior número possível de cafeterias no tempo em que esteve por lá, diferentes cidades, gostos e cafés. A análise era feita desde o ambiente até o público e tudo era anotado em um bloquinho que ele levava a todos os lugares. 

Para entender a qualidade de um bom café é preciso entender a importância da origem do grão. A forma como foi torrado também é essencial para o processo. Tem a ver com vaporizar o leite da melhor forma e extrair o espresso perfeito. Agora com experiência e conhecimento, Marcelo sabe que julgamento é questão de refinamento. As pessoas que o criticaram por abandonar a rotina brasileira e sair da zona de conforto foram aquelas que não possuíam paladar pra reconhecer a particularidade. A revelação desse prazer trouxe para a vida dele as respostas que ele buscava na sua terra de origem. Durante a viagem ele pode recuperar o ânimo pela carreira profissional. Foi dentro da estação que ele descobriu para qual trilho encaminhar seu trem. Um trem de carga, com vagões repletos de grãos que brincam com os tons de marrom.

Retornou ao Brasil com a certeza de seu futuro. Os planos eram encaminhar a faculdade, já que agora ele via um objetivo final para tudo isso, estudar sobre café, ganhar experiência e abrir seu próprio negócio. Em um almoço com seu pai, tentou convencê-lo de que os projetos eram promissores. Não foi fácil conquistar a confiança do pai, porém Marcelo o conhecia. Guardou para o momento final o melhor argumento, o do empreendedorismo, onde mostrou que o projeto tinha capacidade para lhe dar lucro e sustento. Percebeu a conquista quando viu o sorriso despreocupado do pai. O acordo entre pai e filho determinava que o investimento no negócio seria em 2013, após sua formatura.

Marcelo teve o incentivo necessário para se entregar à faculdade e tudo estava fluindo como o combinado. Durante o mês frio de junho seu pai adoeceu. Foram quatro meses percorrendo as curvas da estrada que levava em direção a Serra, para visitá-lo, que o levava a aprender a lidar com as situações críticas da doença. O câncer cerca as pessoas vinculadas a quem tem o tumor e maltrata os sentimentos, o corpo e a mente. O café, que era um hábito cultivado entre eles outrora e nos projetos de sociedade, se tornou mais uma lembrança, mais uma herança. Marcelo acredita que seu pai continua orientando-o mesmo não estando mais presente. Novamente o futuro ficou turvo para o filho, mas a marca dos ensinamentos e dos conselhos passados pelo pai permaneceu. Os planos deveriam ser remodelados, mas sem alteração do resultado. Foi essa a forma que ele encontrou para manter seu pai ligado a algo que era tão importante para eles: o acordo.

Querendo cumprir com a promessa feita ao pai, ele partiu para São Paulo, onde fez um curso de barista junior, na empresa Coffee Lab, durante as férias de verão. O Coffee Lab é conhecido pela qualidade do café, além de ser uma cafeteria é também um laboratório. Lá, um dos principais pré--requisitos é o amor pelo café, um amor que vai além da técnica e disciplina para torrar e preparar a bebida. Tem relação com dedicação e entrega total ao processo até alcançar a xícara de café ao cliente. Esses aspectos encantaram Marcelo. Naquele momento a promessa se tornara algo muito maior e importante, o objetivo dele era poder dar estabilidade não só ao futuro dele, como o de seu irmão e de sua mãe. Para aprimorar seus conhecimentos, em julho, completou mais um curso em SP, dessa vez de barista sênior. Nessa trajetória ele aprendeu e conheceu pessoas que no futuro renderiam oportunidades excelentes. Já em Porto Alegre seguiu com a faculdade, esqueceu-se do mundo e usou os objetivos profissionais como eixo para seguir com a vida.

Encontrou no trabalho de conclusão de curso um esconderijo, onde não precisava pensar nos últimos acontecimentos, só era preciso focar em seus projetos e depois adaptá-los as mudanças que o destino fez em sua vida. Ele sabia que era isso que seu pai queria, mesmo nos constantes momentos de perda da lucidez, que ele focasse no que o deixava feliz. Neste processo ele percebeu que estava pronto. Marcelo se tornara adulto, com responsabilidades e um sonho de criança pronto para sair do papel. Formou-se em 2013, como juramentista da turma, cumprindo assim, uma parte do acordo com seu pai.

No segundo dia do ano de 2013, ele enviou um pedido para trabalhar no Coffee Lab. Foi com o desejo de viver a experiência diária em um ambiente em que as pessoas compreendem e compartilham do amor pelo café que ele enviou o email. Foram quarenta minutos de espera. A resposta chegou pela gerente da empresa. Hoje é ela quem coordena Marcelo a trabalhar seus sonhos na maior cidade brasileira.

A rotina é desgastante, mas recompensadora. Abandonar mais uma vez o conforto do lar para alcançar seus próprios desejos e crenças. São aproximadamente sete pessoas dividindo o quarto de um albergue paulista. Personagens que compartilham vidas e fábulas. O bom ou mau humor diário que testam as medidas de cada um. As folgas são apenas aos domingos e são muitas as horas extras cumpridas com satisfação. O reconhecimento dessa dedicação diária é encontrado nas conversas com sua chefe, que está se tornando uma grande amiga e conselheira. O aprendizado que faz valer todo caminho percorrido até chegar ao trabalho. Por enquanto a maior parte de seu trabalho consiste em vender cursos, mostras e convencer as pessoas a entrar no mundo cafeeiro.

O resultado do acordo com seu pai está cada vez mais próximo de se tornar realidade. Quando voltar de São Paulo, no próximo ano, pretender abrir sua própria cafeteria. Os projetos de Marcelo estão passando pelo mesmo processo extenso que uma boa xícara de café leva para ser preparada. Ele está aguçando o paladar, aprendendo a lidar com o instinto empreendedor e conhecendo melhor seus limites. Nessa trajetória fica claro que a semente do empreendedorismo não caiu longe do pé. Marcelo sabe que está honrando o acordo feito com seu pai. O café foi o que o ajudou a descobrir quem realmente é e que trajeto dar à sua vida, agora essa mesma paixão o move para caminhos mais longos, que faz com que esse apetite empresarial se torne uma cafeteria ideal, na busca pelo espresso perfeito.

Existem lugares que nos fazem bem. Pessoas que nos transmitem amor. Sons que nos deixam em paz. Poder ter essa mistura de sentimentos ao mesmo tempo pode parecer utópico. O dia a dia corrido atribuído à rotina programada e aos compromissos inadiáveis nos amargura em uma cidade que não respira. Desleixados, esquecemos de pensar, refletir e perceber que lidamos todos os dias com pessoas iguais a nós. Humanos. Mas tem gente que repara e então essa fusão de emoções acontece.

Surge um local. Nele, você não conhece a maioria, mas é tratado como se todos sempre estivessem no seu círculo de amizades. Olha ao redor e a única coisa que vê é verde. Mato por todos os lados. Morro. Os raios do sol atravessam as árvores quase cegando a visão, mas é possível conseguir enxergar posicionando o rosto em frente a algum galho. Um suspiro e a estranheza de respirar ar extremamente puro. Uma portinhola se abre e alguns bois se colocam a pastar junto a uma galinha e seus pintinhos.

Circulando pelo lugar escuto um barulho de água. Uma ponte surge em meu caminho e tenho quase certeza de que algo bom me espera. Sigo o maravilhoso som e me deparo com uma cascatinha. Água gelada, transparente e límpida, quase como um espelho, que refletia os raios solares tornando o lugar aconchegante. Pedras pontiagudas e lisas ao fundo. Molhar todo o corpo exigia coragem e tempo. Porém, no estante seguinte ao mergulho a sensação era de lavar a alma. Literalmente. Como se embaixo d’água fosse uma pessoa. Ao voltar para a superfície, outra. 

Audrey Wallace estava lá. Conta que no momento que chegou logo sentiu um clima de respeito, amizade, coletividade e amor. Sentimentos relatados por muitos que estiveram no lugar. E não era por menos. Não havia intolerância e muito menos falta de educação. O respeito, que no cotidiano não passa de uma palavra do dicionário, neste lugar ganhou forma e sentido. Amizades criadas em segundos que continuarão por anos. A possibilidade de poder emprestar qualquer coisa para alguém com a certeza de que de que este alguém irá devolver. Tudo isso agregado no amor. A falta de preocupação com as coisas, objetos e barracas, era possível. Audrey diz que não precisava se preocupar se alguém iria roubar suas coisas e percebia que também não existia uma preocupação se as crianças corriam perigo. “Porque isso não existe”.

O lugar tinha infraestrutura montada e do próprio local. Três bares. Em um deles a alimentação. Comidas caseiras como cuca e chimia eram oferecidos no lugar. No almoço tinha o prato colonial ou vegetariano. Audrey achava maravilhoso acordar pela manhã, tomar um bom café da manhã sob o sol ao lado de uma cascata linda, mais tarde almoçar e curtir os shows com pessoas incríveis ao seu lado. Shows? Logo mais falo disso. Antes vou falar dos outros bares. Nestes a sede podia ser saciada. Em um deles encontrava-se bebidas não alcoólicas e alcoólicas. De água a cerveja. De refrigerante a cachaça artesanal. E no terceiro e não menos importante bar, era vendido chopp artesanal. 

Próximo aos bares estava montado um pequeno palco, no qual era decorado com retalhos de tecidos e morangas. Tudo dava o ar de realmente estarmos no meio rural. Na relação das bandas encontrávamos nomes não muito comuns, mas conhecidos pelo público do lugar. Davi Henn, Cabeçote e Centro da Terra são alguns exemplos. Isso não significa que eram ruins. Muito pelo contrário. Cada uma trazia sua música autoral e transmitia sensações das mais variadas. Com Quarto Sensorial, por exemplo, na música Voo Livre, era perceptível muita gente “voando” com os olhos fechados curtindo o som. Audrey destaca a psicodelia das bandas que tornava o clima ainda mais mágico.

Era a segunda vez de Audrey neste lugar, porém, a primeira vez nessas condições. Condições estas que a fizeram chorar e se emocionar simplesmente por encontrar amigos neste belíssimo lugar. “Não sei bem como descrever o que senti lá, é como se estivesse plena”. O sorriso no rosto permanecia a cada dia, minuto, segundo, em que se encontrava neste ambiente. Para ela foram três dias de felicidade pura. Amor. Um local feito para pessoas que não se encaixam na correria e brutalidade do dia a dia poderem respirar leves. Sem preocupações.

Quando estava lá, era notável a gana de todos de querer viver cada segundo. De ser feliz a todo o momento. Audrey ainda levou sua cachorrinha com medo que não fosse dar certo. Felizmente se enganou e diz que nunca a viu tão feliz. Correu, pulou, brincou e ao entardecer, ganhava os mais variados colos para se encostar e tirar um bom sono. Principalmente daqueles que se encontravam perto da fogueira. 

Este lugar não é sonho, embora pareça. É a mais pura realidade. A poucos quilômetros da capital. No interior do Rio Grande do Sul encontra-se a cidade de Cascatinha. O evento? Festival Pira Rural que acontece todo ano no feriado de Páscoa. Agora, resta a saudade de Audrey e todos que participaram este ano, mas a felicidade de poder ter compartilhado com tanta gente momentos com os mais variados sentimentos.

2012/2:

ESPM Entrevista com Cíntia Moscovich - trabalho da disciplina de Técnicas de Entrevista da professora Ângela Ravazzolo


Crônica produzida para a disciplina - Linguagem Jornalística da professora Roberta Sartori

De um policial aposentado por Lucas Abati 


Trabalhos produzidos em Fotojornalismo, ministrada pelo professor Vlademir Canella

Ensaio Crianças


Trabalhos produzidos Linguagem III, ministrada pela professora Eveli Seganfredo

O Grande Sonho - por Rafael Potter

Trabalhos produzidos em Oficina de Redação III

Telejornal 1

Telejornal 2


2012/1:
Minha primeira música - Mariana Ceccon

De Eldorado para Porto Alegre - Matheus Pandolfo

A primeira experiência com a escrita - Thamara Marques Riter

Cárcere Literário - Valeska Linauer

João acordou em meio ao burburinho. Não entendeu o que se passava. Os aparelhos, a fina cortina branca e o leito sobre o qual jazia não permitiam outra interpretação. Não era o inferno, e tampouco era o céu. Estava vivo. Assim que notou o abrir dos olhos de seu filho, Leonardo esbravejou. Beijá-lo? Abraçá-lo? Mostrar qualquer sinal de contentamento? Não. A primeira reação de seu pai foi repreendê-lo. As dores abdominais e o imediato socorro médico impediram-no de expressar sua fúria. Não adiantara de nada.
    
Seu meio-irmão, Augusto, foi quem o dissuadiu de tentar novamente. A vida não se resume à sua relação com seus pais. Tampouco está limitada ao sentimento de sua ex-namorada. Estariam juntos. Recém separado da mulher, Augusto foi obrigado a retornar à casa de sua avó, onde moram também sua mãe, sua tia, e agora João. Situação temporária, argumentou ele. “Aguente firme”, implorou, “logo sairemos desse inferno e tudo irá mudar”. “Vamos arrumar um apartamento e teremos tranquilidade”. Único são em uma família de bipolares diagnosticados, Augusto é a muleta de João. Funcionário público concursado, ele serve de exemplo para a vida que João quer levar. E João promete continuar a sua vida.
    
Nunca poderia ter previsto essa situação. Um mês antes, o seu futuro parecia brilhante. João passara no Enem, após meses de estudo, e havia se matriculado em Ciências Sociais na Faculdade Federal de Juiz de Fora. Ficaria a uma hora e meia de distância de Paula, o amor de sua vida. Aguentaram a distância – ele, em Porto Alegre, cidade onde residiu durante muitos anos, terra de seus melhores amigos e de sua psiquiatra, estudando para o vestibular; ela, em Petrópolis, onde se conheceram e moraram juntos, trabalhando como auxiliar de ortodontia. Sobreviveram inclusive ao caso de aborto, fruto de sua infidelidade com a diarista. Próximos, poderiam, em definitivo, viver como um casal. Não foi o que ocorreu. Paula, solitária pela distância e influenciada por sua família, estava em um relacionamento sério com outro. Por consideração, esperara um encontro pessoal para comunicar o fim do relacionamento. João desabou.
    
As circunstâncias não iriam melhorar. O fato de viver na pele as consequências da doença e de receber tratamento permitiam com que entendesse os hábitos anormais de seus familiares maternos. Mas não implicava em uma relação amistosa com eles. João guardava ressentimentos. Não tratada, a sua mãe não pode criá-lo. Mal conseguia cuidar de si mesma. A tarefa coube a seu pai. Contudo, essa situação também não traduziu em proximidade entre os dois. Muito pelo contrário. Pragmático ao extremo, Leonardo nunca compreendeu o seu filho. Nunca aceitou as constantes desistências de João. Medicado, a doença não servia de desculpas para os seus fracassos, entendia o pai. O apoio financeiro sempre houve. Mas o emocional era ausente. Após a notícia de que João desistiria do curso de Juiz de Fora, entraram em uma discussão. Novamente um abandono. Mais dinheiro jogado fora,  avaliava Leonardo. João, por sua vez, urrava. Não pensava nele. Pensava apenas em dinheiro. Não entendia o que Juiz de Fora representava para ele. O que era confronto verbal tomou conotação física. João agrediu Leonardo.
    
O pai resolveu romper ligações. Não mais sustentaria o filho, financeiramente ou de qualquer outro modo. João teria de deixar o seu apartamento em Petrópolis. Poderia ir para o Rio de Janeiro morar com a sua avó. Para Leonardo, não importava o destino. Que juntasse os seus pertences, queria-o fora dali. João surtou. Rumou para o banheiro, pegou a cartela de Sertralina, destacou os comprimidos e ingeriu-os de uma só vez. Era isso. Em plena fase depressiva, resolvera dar adeus à vida. Negligenciado pela mãe. Separado de seu amor. Odiado pelo pai. Quem se importava com ele? Assim, sua mãe o reconheceria. Desse modo, sua ex-namorada o carregaria consigo para sempre. Seu pai, então, passaria a amá-lo, mesmo que em memória. Teria importância por toda eternidade. Morreria. Não fosse pela empregada de Leonardo.
    
Adriana, ciente da briga anterior, escutara o destacar das pílulas e, concluindo que João tentava o suicídio, alertou Leonardo. Este conseguiu arrombar a porta e tratou de levar o único filho ao hospital Santa Teresa. Lá, os médicos, através de lavagem estomacal, salvaram a vida de João. Um mero crepitar decidira se viveria ou morreria. O peso de uma existência inteira marcada por sabores e desgostos, toda a conturbada trajetória de um rapaz de 25 anos, condenado desde o ventre a sofrer provações às quais não teve escolha, resumido à um minúsculo ruído. E, apesar da medida, nada mudou. Embora tenha retomado a relação com seu pai, a aproximação que tanto desejava não houve. Não reconquistou o amor de Paula. A insanidade mental da mãe perdura. 

Todavia nem tudo é penúria na vida de João. Mantém uma relação com Augusto que não teve desde os tempos de infância. Os amigos, apesar da distância, entram em contato semanalmente para saber como está. João segue. Irá morar com seu meio-irmão – meio apenas em formalidade – no Rio de Janeiro. Vai arranjar um emprego. Pretende cursar novamente o Enem, para conseguir vaga em alguma universidade da cidade. Ainda pensa em cursar Ciências Sociais. Vê, agora, luz no fim do túnel, a qual Augusto e seus amigos farão questão de manter acesa. Retificando a sentença anteriormente escrita, quase nada mudou. A diferença é ínfima. Como um clique.


* Devido à restrição imposta pelo personagem principal da história, os nomes dos envolvidos foram alterados.
Aos meus 12 anos uma mudança drástica ocorreu em minha vida, me mudei de Eldorado do Sul para Porto Alegre. Ainda que Eldorado do Sul seja considerado parte da região metropolitana de Porto Alegre, eu morava em um bairro mais afastado, que se assemelhava muito mais a uma cidade do interior do que a uma metrópole. Portanto, eu estava saindo de uma cidade em que eu conhecia quase todos os lugares e quase todas as pessoas pelo nome, ou, no mínimo, sabia onde elas trabalhavam, para uma cidade em que, eu constataria após minha mudança, se você é atendido pela mesma caixa de supermercado em um mês no mesmo supermercado é um recorde. Entretanto, eu não estava apenas deixando o lugar em que eu conhecia a todos e a tudo, eu estava deixando os meus amigos, minha amada (mesmo ela não sabendo disso), minha casa e lugares que me remetiam a boas lembranças, afinal tinha passado toda minha vida lá.

Mudar-me para Porto Alegre significava ter que começar tudo do zero: criar novos amigos, encontrar uma nova paixão, enfrentar vários lugares e pessoas desconhecidas, o que na minha visão de garoto tímido e inseguro representava o apocalipse. Como seria possível construir isso tudo do zero? Será que eu teria amigos? Será que alguém falaria comigo? Iriam gostar de mim? 

Todas essas incertezas da mudança somadas com os questionamentos que surgem na adolescência como: “Quem sou eu?”, “O que vou ser?”, “O que pensam de mim?” e a constante preocupação de não “pagar mico” resultaram em meses de angústia e sofrimento. Como nunca fui de falar o que sinto, passar por esse processo de adaptação a minha nova realidade foi feito sozinho. Chorar escondido no armário do meu quarto se tornou rotina. Não sei precisar quanto tempo eu ficava por lá, mas, na minha lembrança, eram horas intermináveis. Eu chorava, chorava e chorava o mais baixo possível, para ninguém ouvir, mas só chorar era insuficiente, pois apenas diminuía minhas angustias temporariamente, eu não me livrava delas.

Certa vez, quando eu me deslocava ao armário para mais uma vez desabafar comigo mesmo, peguei meu estojo e meu caderno e entrei em meu armário. Entre soluços e lágrimas, meu lápis, fortemente pressionado contra a folha quase a fazendo rasgar a cada traço, escrevia no papel todo o ódio que eu sentia de Porto Alegre (por não ser como Eldorado), da nova escola (onde eu ainda não tinha encontrado um novo grande amigo) e de meus pais (por optarem mudar de cidade). Cada palavra escrita era um alivio, pois todos os sentimentos que eu guardava dentro de mim agora se exteriorizavam não em algo abstrato como a lágrima, mas em palavras que descreviam exatamente o que eu sentia. 

A partir daquele dia, o caderno, o estojo e uma lanterna (para eu conseguir enxergar no escuro) passaram a me acompanhar em todas as minhas idas ao armário. Quando comecei a escrever, havia mais ideias, frases soltas, do que propriamente um texto, mas, conforme o tempo foi passando, essas ideias se transformaram em textos que acabaram por me libertar da minha própria angústia, de quem eu havia me tornado refém.
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