Sala de Aula

Certa vez, quando eu tinha recém dez anos de vida completos e cursava a 4ª série, atual 5º ano, do colégio de Ensino Fundamental Menino Deus, onde eu estudava desde o maternal, o professor que lecionava - e acredito que ainda lecione - as disciplinas de Música e Filosofia, chamado carinhosamente por alunos, funcionários e professores de Pedrão, determinou um trabalho em grupo de quatro alunos.

O professor utilizou-se do seu conhecimento sobre música e filosofia para elaborar um trabalho que unia as duas disciplinas. O trabalho era divido em duas partes, a primeira consistia em escolher uma música que relatasse alguma atitude da sociedade com qual não concordássemos e a parte final se caracterizava pela elaboração de uma paródia, ou seja, deveríamos selecionar uma música e utilizar o seu ritmo para criar uma nova versão que em sua letra abordasse algum problema social. As duas músicas deveriam ser cantadas e seriam avaliadas pelo seu conteúdo juntamente com o desempenho do grupo no momento da apresentação. O professor exigia que explorássemos nossa criatividade. 

Na hora de escolher os grupos, foi nos dada a liberdade de fazermos com quem desejássemos. Optei por fazer com minhas colegas mais próximas naquela época, o que foi um grande erro. A data de entrega e apresentação do trabalho foi se aproximando, e eu me encontrava em uma péssima situação, a de ficar cobrando e lembrando do quão importante era aquela avaliação. É importante salientar que eu era uma aluna exemplar naquela época do colégio, infelizmente minha conduta escolar não se manteve sempre assim.

Cada vez mais próximo do dia fui ficando angustiada e acabei por buscar auxílio da minha mãe, que me encorajou a assumir toda a responsabilidade pelo trabalho e fazer tudo sozinha. A primeira metade foi fácil, escolhi a música “Fama”, que, na minha percepção, abordava a ambição das pessoas pelo dinheiro, que muitas vezes sobressaia em relação a outros valores da vida, como família, caráter e amor.

Concluída essa parte, eu ainda tinha o mais difícil pela frente. Foi necessário pedir socorro para minha prima, que era um pouco mais velha que eu e fazia aulas de violão. Juntas pesquisamos e escutamos diversas músicas, brincamos de fazer paródias sobre assuntos amenos, como princesas e nossas brincadeiras favoritas. A música selecionada foi “Aquarela”, do Toquinho em virtude da facilidade de adaptar novas letras ao seu ritmo. Mesmo depois de já ter mais ou menos encaminhado o trabalho, eu definitivamente empaquei. Fazer uma paródia dessa música se tornou extremamente difícil, pois nenhum tema que eu escolhia fui capaz de desenvolver da forma satisfatória. Recordo-me muito bem de que dois dias antes da entrega eu estava assistindo a algum telejornal em casa e foram noticiadas mais uma vez as atrocidades que estavam acontecendo no Oriente Médio em virtude da guerra no Iraque. Me lembro do quanto aquelas imagens me atingiram e ao ver o sofrimento daquela população e principalmente de crianças da minha idade eu não tinha mais dúvidas sobre o que a minha música iria falar. 

Nunca imaginei que lembraria deste trabalho até os dias de hoje, mas, modéstia à parte, minha música foi o destaque da turma, a comoção foi geral entre professores, fiquei extremamente orgulhosa do meu trabalho. O que de fato mais marcou é que eu, mesmo muito nova e talvez justamente por isso, fui capaz de transmitir em cada palavra daquele papel a minha inconformidade com aquela situação desastrosa no exterior, literalmente escrevi o que eu estava sentindo, era perceptível que o meu maior desejo era que aquela guerra findasse. Sempre que leio essa música, que posteriormente foi publicada pelo meu professor num blog na internet, eu me recordo exatamente daquelas imagens de destruição e lembro como se fosse hoje, como se estivesse acontecendo em tempo real aquela guerra. Foi de fato uma grande experiência com a escrita.

A Guerra tem que acabar

Com uma arma qualquer um soldado destrói a esperança
Com mísseis e bombas no Iraque se tem um massacre
Vejo nas ruas crianças mutiladas pedindo ajuda
Mas não há nada que faça parar com esta luta
Se um pinguinho de sangue cai num pedacinho branco do papel
Num instante imagino quanta tristeza está lá no céu
Fico imaginando o porquê desta guerra sem fim 
Se vale a pena destruir tantas vidas assim
Vamos construir um mundo cheio de amor e paz no coração
Entre as nuvens vem surgindo uma imensa luz a brilhar
É a esperança de que um dia tudo isso vai acabar
Basta crer em Deus que um dia 
Isso tudo acabará
Isso tem que acabar!
Com uma arma qualquer um soldado destrói a esperança
Isso tem que acabar
Com mísseis e bombas no Iraque se tem um massacre
Isso tem que acabar
Vejo nas ruas crianças mutiladas pedindo ajuda
Isso tem que acabar...
O período de alfabetização de uma criança é o botão inicial de um jogo chamado conhecimento. Contudo, cada aluno reage de forma diferente diante dessa proposta, e cada um por seus motivos. Em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, morava uma menina tagarela e curiosa, que se chamava Valeska. Estava cursando a primeira série (atual segundo ano). Dentre seus colegas, era a menor aluna.
 
Recreio de educação infantil é sempre aquela barulheira, tem crianças brincando, música alta e o sinal anunciando o intervalo. E isso nunca havia causado problema algum, mas naquela tarde, o barulho foi causador de pânico, medo e também do começo de uma história que perdura até os dias de hoje.

Uma programação especial para as crianças, uma gincana em comemoração ao dia do estudante estava prevista para o período após o recreio, o que deixou a turma entusiasmada. O alarme tocou, a professora liberou os alunos, e todos, já com suas merendas as mãos, saíam da sala, rumando ao sublime momento em que sol e imaginação tornavam o pátio, o lugar mais encantador. 

Já com fome, a menina procurava seu lanche na mochila, mas não encontrava. Numa última tentativa, resolveu olhar atrás da mochila, e dessa forma, seu corpo ficou camuflado entre o material. Sem ver mais ninguém na sala, a professora desligou a luz. Quando finalmente a garotinha conseguiu achar sua merenda, tentou alertar a professora de que ainda estava ali, mas era tarde demais. Seus gritos, abafados pelo barulho do recreio, foram em vão. A sala estava vazia com a porta chaveada. Ela ficou sozinha, trancada numa sala escura. 

Depois de inúmeras tentativas de fuga pela janela, e de perder a voz aos prantos clamando por socorro, cansou-se. E como se já não bastasse ficar presa, ainda havia o agravante do tempo, pois nem os alunos, nem a professora voltariam para a sala antes de a atividade acabar. Sem perspectivas de sair dali, ela começou a olhar a sua volta e pensar no que faria até a gincana terminar. 
        
Naquele dia, a turma havia aprendido a juntar as primeiras letras, formando seus nomes. Sempre muito curiosa a respeito daqueles símbolos desconhecidos, que os adultos desenhavam por aí, ela fitou o quadro branco no qual a professora escrevera por alguns instantes. Achava tão mágico o momento em que o canetão o tocava e formava as mais diversas figuras! Nesse momento, um colorido no rodapé do quadro lhe chamou a atenção.  Os canetões estavam ali, aquela mágica que tanto a fascinava, ao seu alcance, bastava que ela quisesse, que suas mãos a conduziriam. E assim se fez. Foi até o quadro, e como se fosse um escape à realidade momentânea que se impunha, escreveu, letra por letra, sua primeira palavra. Aos poucos o branco do quadro foi sendo tomado pelo vermelho das letras, e a menina foi preenchendo-o, com a única palavra que sabia escrever: o seu nome.

Ao chegar na sala de aula, a professora, espantada, perguntou à menina como ela já estava ali se a porta estava chaveada? Percebendo o ocorrido, a professora tremia como vara verde, branca como folha de caderno novo. Carregou-a nos braços até a diretoria, que imediatamente informou a família de Valeska. 

Esse episódio rendeu uma alfabetização complicada e fora dos padrões. A ida à escola se tornou uma árdua tarefa, pois o medo de novamente ficar trancada, era constante.  Foi necessária uma atenção especial em torno dessa aluna, que precisou inclusive frequentar um  curso de apoio para língua portuguesa e matemática. Contudo, incentivos familiares conseguiram contornar a situação e aos poucos o medo ficou esquecido. 

Cerca de um ano depois, ela finalmente conseguiu aprender a ler e escrever, apesar de  atrasada perante o ritmo da turma . Mas o que não transparecia naquela época, é que o fato de ter usado a escrita como meio de fuga e desabafo, tornar-se-ia um hábito e que de um descuido momentâneo, nasceria uma paixão para a vida toda. Hoje, a escrita é mais que uma válvula de escape, é precursora da escolha profissional de Valeska, que pretende ser jornalista.
Aos quatro anos e meio de idade, tive meu primeiro contato com a escrita. Porém, não sabia ler, tampouco escrever, fato que para alguns leitores pode parecer estranho, visto que vou falar sobre minha experiência  com a escrita. Mas foi esse contato indireto, que me levou a outras experiências com a escrita e à escolha do jornalismo como profissão.

Sendo uma criança de pouca idade, gostava de brincar e assistir à programação infantil da televisão aberta. Havia, no entanto, um programa que me prendia a atenção todas as tardes. Denominava-se Pandorga (exibido pela emissora TVE). Era apresentado por fantoches que interagiam com ao “pequeninos” telespectadores no momento em que liam as diversas cartas enviadas ao programa. Assim, tudo começa.

Queria enviar uma “cartinha” também. Mas, de que forma o faria, se ainda não escrevia nem o meu próprio nome? Foi quando recorri à pessoa que sempre me incentivou à leitura e à escrita, minha mãe. Nos sentávamos juntas à mesa. Ela, com caneta e papel em punho, escrevia tudo o que eu lhe dizia.

Foram inúmeras as cartas enviadas. Muitas com respostas mas uma em especial.Minha mãe abriu o envelope, retirou-lhe de dentro um papel e leu-o para mim.Tratava-se de um convite para participar da gravação do quadro “Jornal Legal”(do programa Pandorga). No dia e hora marcados, fomos até a emissora.Tomada por um pânico, explicado pela timidez, que me acompanha até hoje (um pouco mais controlada, tudo o que consegui fazer foi chorar desesperadamente.

Quando aprendi a escrever, por volta dos seis anos de idade, desenvolvi um gosto especial pela escrita de cartas, que faz parte da minha vida até hoje. Assim, além das cartas de felicitações em datas comemorativas, escrevi e escrevo muitas, dizendo aos destinatários coisas que, por vezes, “olhos nos olhos”, não me permito expressar.

Então, o papel torna-se um grande amigo, com que posso desabafar, dividindo minhas alegrias, tristezas, medos, incertezas, expectativas, etc. É onde posso ser eu. Simplesmente EU.

Alguns passam e me olham com pena, outros com desgosto, mas uma pequena quantidade me olha com orgulho, aqueles que, com esforço, me mantêm vivo, que, mesmo quando disseram para desistir, sempre me bancaram e assumiram a responsabilidade.

Hoje já não sou aquele ser com porte, que impõe respeito, que era a atração principal nas festas infantis enquanto corria atrás de balões para estourá-los. Já não assusto mais invasores com tanta facilidade, admito que eu até possuo um pouco de medo deles. Já tenho o olhar de um velho ancião curtindo os últimos momentos enquanto espera o repouso, afinal eu possuo quase a mesma idade que o primeiro sobrevoo do 14-Bis. 

Tenho diagnosticado todos os problemas de um indivíduo pós-moderno: artrite, artrose, hipertensão e talvez até um pouco de estresse. Sim, ou acham que comer com meus frágeis dentes e demorar um bom tempo para conseguir levantar e fazer minhas necessidades básicas é fácil? Às vezes, até deixo algum rastro pelo caminho, mas nunca sofri nenhum castigo por isso, acho que tenho muito crédito com quem limpa o chão. Com certeza eu mereço essa moral, foram anos de dedicação e espera no portão, reação a vários estímulos no meu prolongamento nervoso e algumas vociferações para o sino da igreja que insistia em badalar religiosamente ao meio-dia.

Alguns vizinhos eu vi crescer, passavam pedalando na sua motoca ou andando de skate, barulhos que me atordoavam demais, hoje esses mesmos passam cantando pneu de seus carros 1.8 de 16 válvulas. Outras senhoras que já eram velhas, eu vi ficarem mais velhas ainda, algumas não passam mais por aqui a caminho da missa, não sei se elas morreram, mudaram de casa ou trocaram de religião. Vi algumas crianças novas chegarem, que, na medida em que cresciam, miravam erroneamente pra mim esboçando um receio e contando ao pai minha presença vacilante. De fato eu fui e ainda sou muito popular na minha rua.

Talvez minha presença marcante e constante à espera de alguém tenha causado uma má impressão a uma senhora que sempre que passa me olha com pesar e sai às lágrimas, admiro tamanha preocupação, mas ela me traz comida e meu instinto primário nota a presença de um cheiro diferente e sacio minha vontade em pouco tempo. Caso tenham esquecido, sou hipertenso, tenho alimentação regulada e não sei distinguir o que é certo ou errado. Reconheço sua preocupação, mas tenho quem cuide de mim.

Então, como não consigo negar um prato diferente, gostaria de pedir encarecidamente para que ela pare de me alimentar e não olhe a mim com pena, olhe com admiração, como um exemplo de superação. Nunca fui maltratado, muito menos passei fome e ainda menos sofri da ausência de carinho. Gostaria também de pedir, caso ela queira ajudar de forma útil, que seja com um cafuné ou algumas palavras - obviamente ela deveria falar alto, pois minha audição também foi afetada pelos anos nesse mundo estranho -, embora eu não consiga responder, ainda estou lúcido e compreendo bem.

Em respeito aos meus donos, também gostaria de pedir para que ela pare de causar constrangimento a eles. Comentar na rua que eu sofro de maus tratos não é legal e não me sinto nada bem com isso. Não tenho conhecimentos científicos, mas acho que intromissão na vida alheia é um dos requisitos básicos para os humanos, pelo menos é o que percebo pelas pequenas ações que consigo enxergar no meu ângulo de visão limitado pela grade de ferro que separa minha casa dos problemas da rua. 

Também percebo o cotidiano apressado dos jovens, que em passadas largas e rápidas saem com pressa das escolas aqui perto, em contraste com as crianças que observam cada ser e objeto como se fosse uma nova descoberta e aos idosos que enfrentam cada desnível da calçada com a mesma dificuldade que eu tenho para subir o degrau do deck da piscina. 

Ah! Como eu queria que as pessoas pudessem me ouvir. Eu iria ensiná-las que não existe uma fórmula para longevidade, mas cuidar de si e de quem ama é a melhor maneira de explorar e aproveitar ao máximo cada momento vivido, e assim tornar longos os momentos de prazer e curtos os de tristeza. Mostraria que a vida passa a nossa frente muito rapidamente e cada momento olhando ao lado é tempo perdido. Nós, caninos irracionais, aprendemos isso melhor do que ninguém e deve ser por esse aproveitamento de emoções que nosso coração bate por menos tempo.
Não sei quantas primaveras ainda terei por aqui, mas estou em paz por sempre ter feito o que achava correto e por deixar este aprendizado. Como melhor amigo do homem, tenho dever em deixar um conselho: percebam, vivam, amem a vida de vocês, aproveitem quem vocês têm ao lado, valorizem suas habilidades, quem sabe assim um dia vocês possam olhar para trás e afirmar que tiveram uma vida saudável e mansa. Quem quiser agir, que aja logo. 

Urso, pastor alemão falecido em 29/10/2012, interpretado por Lucas Abati, 18.

É difícil se apresentar e se descrever quando mudamos tanto. Esse é o problema de tentar definir uma pessoa, podemos mudar a qualquer momento por motivos bastante simples, podemos ser, por exemplo, pessoas completamente diferentes das que éramos depois de terminar um livro, ou um filme, música, ou depois de uma noite sem dormir. Por esses motivos é mais sensato declarar apenas coisas que se demonstraram mais constantes do que o resto.

O grande sonho era ser astronauta, mas a física e a matemática dessa história toda acabaram me afastando disso. Uma vez que eu não iria sair para ver outros mundos e outras galáxias, eu pensei que iria, pelo menos, inventar alguns. Crescer foi bastante fácil, tirando as grandes decepções de não receber uma carta para frequentar Hogwarts e mais tarde a de não desenvolver um superpoder na puberdade para me juntar aos X-Men. Agora, além da já pequena esperança de receber um anel de Lanterna Verde, o plano é criar e escrever sobre todos esses mundos que eu poderia ter visto, sobre todas as coisas que me foram negadas porque disseram que eram impossíveis ou não existiam.

Talvez algum dia todos aqueles arquivos salvos no computador saiam de lá e sejam publicados, afinal seria bastante divertido ganhar dinheiro por inventar coisas e coloca-las no papel. Em contrapartida, Neil Gaiman uma vez disse que “o mundo é um lugar melhor depois que você cria algo que não estava ali antes”, e isso já é o bastante.
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