Sala de Aula

Perfil jornalístico de Ageu Sérgio da Silva


Escorado sobre o corrimão da escada que leva ao estacionamento do Nacional de Teresópolis, situado ao sudoeste da cidade, está Ageu Sérgio da Silva – um tipo estranho e magro, de boné “aba reta”, calça jeans, chinelos e camiseta listrada, com um estrabismo desconcertante e um autoritário e volumoso bigode multicor projetando fios negros, brancos e dourados. Por muito tempo, eu, frequentador do supermercado, acreditei que aquele senhor aparentemente ranzinza fosse uma espécie de totem do local, pois estava sempre em posição vigilante, nos mesmos pontos: no pé da rampa que leva ao interior do Nacional, escorado, ou sentado sobre um banco solitário, lá dentro, perto de uma lavanderia. Jamais o vi sorrir ou exibir alguma expressão que não denotasse irritação ou seriedade repelentes. Tanto é que pensei várias vezes se esse seria mesmo o meu entrevistado... No caso, a curiosidade acabou vencendo a catadura grave de Ageu, e lá fui conhecê-lo. 

Seu olhar ficou dez vezes mais amedrontador e irritadiço quando me dirigi ao seu encontro, apresentando-me como aluno de Jornalismo, a ponto de quase desistir, dizendo que tinha me enganado e indo embora em seguida. Quando expliquei minha razão de querer entrevistá-lo, ressaltando que a proposta era traçar um perfil de alguém que costumo ver, mas conheço pouco, ele logo se mostrou receoso e defensivo. “Eu só venho aqui pra negociar. Só isso...” Alguns segundos de insistência foram precisos até que Ageu percebesse que não se tratava de suspeita em relação às suas ocupações nas redondezas do Nacional ou algo assim. Durante esse pequeno período de quebra de gelo, acabei reparando em detalhes que passavam despercebidos: jamais tinha notado, talvez pela sombra constante do boné sobre seus olhos e pelo estrabismo acentuado, que suas íris eram escandalosamente azuis, imersas em duas amareladas escleras, cheias de rabiscos enevoados de vasos vermelhos. Disse-me o nome, a idade, 56 anos, e onde tinha nascido, São Pedro do Sul, de onde trazia o destacado e manso sotaque interiorano. “Lá não era bom, não tinha nada, não tinha serviço... Agora começou a ficar bom.” Nos primeiros minutos, seu profundo apreço pelo trabalho já começa a ser exposto – o que, ao longo de toda a conversa, foi apontado inúmeras vezes. A obsessão por atividades de qualquer natureza laboral e pelo acúmulo de dinheiro eram a razão de viver daquele homem, a verdadeira encarnação gauchesca da ética protestante norte-americana, esmiuçada por Max Weber. “Eu empresto dinheiro, negocio, trabalho como carpinteiro, vigio carro à noite aqui no Piú Buona (restaurante do bairro)... Cato latinha também...” Quando me mostrei surpreso, precisamente, na parte das latinhas, já que se trata de um senhor de quem não se supõe tanta disposição física, ele interveio, interpretando a surpresa de outra forma: “Isso dá dinheiro, sabia? O problema é que as pessoas não sabem usar esse dinheiro. Compram droga, compram crack...” Seu desprezo pela epidemia de crack na cidade, a “pedra”, fazia questão de tornar explícito: “Isso aí acabou com Porto Alegre! Há dez anos atrás era melhor, mas de cinco anos pra cá piorou tudo!” Aqui, dois moradores de bairro relativamente suburbano (Ageu é meu vizinho de rua, descobri no fim da entrevista) se entendiam. Lamuriamos sobre a agonia da hipervigilância, sempre presente, quando saímos à rua e, quando o lamento ganhou tom mais revoltoso, Ageu fez uma ode à pena de morte. Mostrei-me curioso sobre seu ponto de vista, que veio, em seguida, acrescido de alguns argumentos depois das provocações que fiz sobre o assunto: “Porque hoje o bandido dorme na cadeia e amanhã tá solto! Se o governo fizesse mais cadeia, prendesse mesmo bandido e não ficasse só roubando...” A pena de morte lhe era uma espécie de última esperança diante da ineficiência do judiciário e do poder público em geral, ao que parecia. 

O homem de braços brancos e busto vermelho, enrugado, quase morrera por três vezes. “Eu bebia muito, fumava, farreava... Hoje eu não bebo, não fumo, não jogo...aí sempre tenho dinheiro.” Ressentia seus tempos libertinos de jovem, mas sempre arrematava a culpa esbanjando a austera e abstêmia vida que levava agora. Da juventude, herdara apenas a grave cirrose, garantia. Semelhava-se que a intolerância com dependentes químicos provinha de sua própria experiência, porquanto tivesse vencido o vício sem ajuda de ninguém, sem a piedade do Estado ou da sociedade. “Isso aí não merece ajuda, eu ia ajudar quem não tem meio, quem não tem conserto” – declarou, curiosamente, quando foi perguntado sobre o que faria se ficasse milionário. Ageu, o acumulador compulsivo de dinheiro, manteria a mesma vida que levava: sem filhos, sem mulher, sem bens de luxo, no mesmo bairro, na mesma casa. “Eu ajudaria os pobres, aqueles sem meio.” – reiterava. “Eu até gosto de ser meio molambento, que aí não chama atenção...” Um outro senhor, gordo, de óculos escuros e camiseta regata, passou por nós e falou algo a respeito de mil reais que seriam emprestados. Pelo visto, isso gerou uma quebra de expectativa, pois Ageu tinha entendido que essa quantia seria emprestada por ele, e não a ele, como dissera o intrometido. O senhor seguiu lentamente em direção ao obscuro estacionamento, descendo as escadas, e Ageu o seguiu, falando calmo e convincentemente, em tom negociador, deixando-me como se eu já nem estivesse ali. Esperei por uns cinco minutos e ele voltou, tagarelando sobre seu colega de agiotagem de rua, que era ex-motorista de ônibus, aposentado pela Carris – para ele, valia a pena emprestar dinheiro, tinha trocado de carro recentemente, esse tinha como pagar depois, explicava o entrevistado. Perguntei como ele agia perante os eventuais caloteiros. “Não tem violência, mas esse aí nunca mais vê a cor do dinheiro. E eu não empresto pra desconhecido, empresto no máximo cinquenta reais, às vezes...” O senhor voltou para lhe dizer algo e, percebendo a entrevista, disse para que eu continuasse, que não atrapalharia mais. “Mas ele já tá acabando.” – acrescentou Ageu com uma impaciência sutil, em presença de uma irresoluta oportunidade de negócio. 

A juventude atual era um desastre completo, segundo dizia, movendo-se com inquietude de um lado para o outro, e se aproximando bastante de mim quando engatilhava mais uma frase. “Eles não respeitam os mais velhos... Agora que tiraram a lei de respeitar os mais velhos, aí piorou tudo...” Antes que eu perguntasse qual era a tal lei, ele me apontou um jovem negro, vestido à “hip hop”, que tinha acabado de sair do supermercado. “Esse aí tem mulher, tem filho e usa crack. É vagabundo... Mora ali naquela casa velha, em frente à ferragem, ali na Carvalho de Freitas (nossa rua).” Na tentativa de lhe arrancar algo mais íntimo e inesperado, perguntei-lhe sobre seus sonhos. “Não tenho nenhum. Meu sonho mesmo é ter dinheiro, saúde...” De novo o bendito dinheiro! Ainda não digerindo muito a motivação de toda sua ambição, a caridade, perguntei-lhe se, então, levando em conta o que tinha me dito antes, o dinheiro, para ele, era apenas uma ferramenta, um meio de ajudar os necessitados, e não um fim em si mesmo. “O dinheiro é para ajudar os outros e porque eu preciso comer também... Não tenho geladeira, não tenho fogão, só uma televisão. Como em restaurante.” Aproveitando o assunto, mencionou pela segunda vez que iria entrar e comprar alguma coisa para comer, cautelosamente, para que a pressão e a pressa suscitados não fossem rudes demais. Quis saber, por último, qual era seu maior medo. “Medo? Eu não tenho medo.” – era a mais caricata figura de um caubói, bigodudo, mal encarado e com a feição obscurecida pela sombra de seu chapéu, parado no canto isolado do saloon, envolvido apenas pelo odor forte de suor ressecado. “Mas não existe nada que te faria se sentir angustiado, que você tentaria ao máximo evitar, a qualquer custo? Por exemplo, perder todo o seu dinheiro.” Ele riu – é assim que eu me refiro ao sorrateiro esgar que aparecia vez ou outra nos arredores de seu bigode – e respondeu: “Dinheiro eu nem tenho muito. Mas o problema é quem não é de Deus. Quem não tem fé em Deus nunca vai ter dinheiro! Nunca! Hoje, eu vou te falar, o pessoal falta vender até a alma... Nem se lembra de Deus.”

Só depois dessas declarações finais eu fui capaz de ter uma interpretação mais ou menos clara sobre a figura paradoxal que fareja dinheiro sem desejar uma vida de prazeres materiais: seu grande temor era não fruir da salvação divina, da redenção concedida àquele libertino arrependido. Como um autêntico desbravador do Oeste, herdeiro do espírito colonizador dos calvinos ingleses, ele esperava vislumbrar, após suas horas de esforço físico, mental e emocional, o tilintar angelical das moedas e o farfalhar das notas anunciando que aquele pobre homem era um bem-aventurado, e teria um privilegiado destino no além. Por fim, ele tornou a falar sobre o lanche que iria fazer e, deixando a inconveniência jornalística de lado, eu me despedi e agradeci pelo tempo. Quando virei as costas, para ir, ele voltou depois de dois passos, como sempre fazia quando ia dizer algo: afastava-se, indiferente, para depois voltar e declarar alguma coisa, incisivo. “Se você trabalhar, vai ter dinheiro.” Acenei positivamente, e, quando ele me deu as costas, virei-me de novo. “E meu problema é com o crack!” – voltou, num ímpeto, e logo estava no topo da rampa, desaparecendo entre os carrinhos, sacolas, braços, pernas e rostos. 


Gabriel Couto Díaz, 11/03/2014.

Narciso se preparava para dormir. Tinha escovado os dentes, tirado cada fiapo de frango com fio dental e até já vestia seu pequeno short vexatório da Adidas, um short meio "boca de sino", deixando metade da coxa à vista, um resquício que, nos anos 1980, as pessoas tinham coragem de usar na rua para correr, em público, sem nenhum tipo de constrangimento. Contudo, mesmo já devidamente uniformizado e higienizado para o sono, resolveu dar uma última olhada nos canais da TV. Em quase todos, o assunto ainda era o mesmo: dezenas de jovens mortos numa boate por causa de um incêndio. A notícia havia rodado o país inteiro e, desde as primeiras horas do dia, era o tema principal das conversas nas refeições, nas salas de espera de consultórios, nas lanchonetes, nos ônibus, nas escolas, nas casas de strip-tease e nas filas de mercearias. Narciso não se incomodou com a ausência de variedade na programação, embora preferisse assistir a outra coisa. Ele sabia que a repercussão é importante nesses casos, ajuda a evitar que tragédias como essas se repitam. E foi naquele momento – não mais em choque, numa análise racional sobre a importância do alarde midiático, apertando o botão dos canais com dedos robóticos, sem demonstrar sequer uma contração de cenho, consternada – que surgiu o homem. O maldito e lúgubre invasor, o mais inconveniente dos inquilinos, a presença mais desconfortante e, ao mesmo tempo, a mais tentadora. 

– Calma! Até parece que não está acostumado com minhas visitas repentinas! E aí, como andam as coisas? – disse o sujeito em resposta ao salto quase felino de seu anfitrião surpreendido.

– Desgraçado! Um dia vai me explicar como consegue entrar aqui, estou cansado disso! Já coloquei cerca elétrica em todos esses muros e você continua aparecendo nessa varanda, quase me causando um infarto. O que quer? São quase uma da manhã.

– Você sabe que eu só venho aqui pra te ajudar, meu garoto. Tenho sido um grande amigo. – disse, sereno, exigindo gratidão com sutileza e cordialidade. 

– Eu sei, me desculpe, mas tente me avisar antes de vir aqui ou de falar qualquer coisa num momento de extremo silêncio, quando eu aparento estar sozinho. Isso me mata.

– Sim, isso te mata. E não há nada mais eficiente para ressuscitar um homem do que a morte, não é? - fez essa última indagação olhando as cenas do incêndio, na TV. 

Por uns segundos, ambos entregaram-se à reportagem já repetida pela quarta vez no dia, só naquele canal. Enquanto Narciso questionava a mente de seu visitante, em silêncio monástico, o inusitado cavalheiro apenas assistia à sequência de imagens trágicas com um fulgor estático nos olhos, que, como uma explosão, mesmo impenetrável – censura decorrente da efemeridade do fenômeno, assim como de sua desordem natural –, permitia ao observador ter ideia da mágica microscópica que ali ocorria, ao deixar transparecer, vez ou outra, algum vulto multicor, que, por si só, já alimentava e assassinava todo o desejo de espetáculo, por semear conjecturas assustadoras da ideia colossal da qual ele surgira. 

– Narciso, você sabe no que eu penso quando vejo isso? – sem tirar os olhos da tela, o invasor rompeu a calmaria da pequena digressão.

– Não...

– Eu penso no quanto essa gente precisa saber. 

– Saber o quê?

– Que você lamenta.

– Os mortos?

– Não, os vivos.

– Por que eles precisam saber?

– Narciso – após uma pausa pedagógica, com o fim de que o pupilo tivesse tempo para iniciar um esforço de raciocínio ou somente para resgatar a atenção, o homem prosseguiu – esses jovens morreram, mas você está vivo! Mais vivo do que nunca! Mais vivo do que ontem, antes de ter a morte esfregada no seu rosto por centenas de câmeras e ângulos de corpos jogados no chão! Mais vivo por ter suas pupilas dilatadas hoje cedo quando foi fazer a barba e, ouvindo o rádio, soube da notícia. Mais vivo por ter sofrido a dor do outro, por ter aberto passagem à desolação, por uns segundos, como um milionário entediado que recebe em sua mansão um chefe de uma tribo aborígene da Micronésia apenas para apreciar seu exotismo e preencher, com pequenos relâmpagos, seu peito murcho! Você se compadeceu, seus olhos marejaram, você quis se sentir motivado a ajudar, você quis ver os responsáveis presos, você sentiu o que deveria ser sentido e todos precisam saber disso! Eles necessitam dessa sinergia e você sabe do que falo, meu amigo. Você expõe o que há de mais terno em seu interior e, assim, eles se reconhecem em seu âmago, percebem a satisfação das expectativas e te saúdam. Não será difícil dizer, eles já estão comovidos. Vamos, Narciso, só umas palavras.

– Olha, eu não sou um bom orador...

– Eles precisam te ouvir.

– Mas eu não vou dizer nada além do que está sendo dito...eu vou dizer o óbvio, o usual...

– E, por isso, eles te amarão. Agora diga, Narciso, vá!

– Espera aí! Por quê? Por que se já existem várias pessoas fazendo a mesma coisa?

– Elas estão sendo amadas, Narciso, e você está aí com um shortinho boca de sino da Adidas...

– Chega! Eu me cansei dessas ordens ridículas! Quem é você pra entrar aqui e querer me domar como um cavalo? Todos lá já sabem o quanto eu, implicitamente, lamento. Todos sabem que eu não sou um sociopata, é claro que eu achei tudo isso muito triste e...

 – Narciso, seu idiota! Você não percebe que isso não basta? De que adianta chorar se suas lágrimas não banharão uma plateia ávida por drama, ávida por se mostrar cândida e magnânima? De que adianta gemer ao mundo se a dor não ecoar como um aplauso fraternal e afagador? 

– Mas isso é nojento! Minha comoção não tem "finalidades", eu não me comovo por "recompensas" sociais. Simplesmente sinto.

Uma gargalhada constrangedora, seguida de um tapa exagerado no braço do sofá, acabou com a áurea sensível que envolvera a declaração do dono da casa, trazendo, imediatamente, um suave rubor em suas bochechas. 

– Narciso, você é uma figura! Agora só me faltava essa...quer me enrolar! Justo eu, que estou direto aqui contigo! Ai, ai... Anda logo, diz pra eles.

Num dilema entre o orgulho e a obediência, o rapaz hesitou por uns instantes, com um incômodo e ira notórios. Seu hóspede momentâneo, esbanjando o sarcasmo do vitorioso, ergueu as sobrancelhas e apontou com os olhos para o computador, ainda ligado, que repousava sobre a mesa da sala. Narciso se levantou sem encarar o sujeito e foi direto à máquina. 

Não vale a pena, aqui, transcrever o pequeno texto de sete linhas, escrito em poucos minutos e muitos chavões, feito por nosso egrégio protagonista; não muito pelo espaço, visto que não estou preocupado com o tamanho da história, mas, sim, pela vasta fonte de consulta que já se encontra em nossas redes sociais, e que os senhores podem facilmente explorar caso tenham curiosidade em ler as palavras do rapaz. 

– Ótimo, Narciso... Veja! Olha só quanta gente maravilhada! Isso é lindo, é quase sexo grupal na piscina funesta da consternação coletiva! E você é o "bem dotado" da vez, olha lá! – neste momento, uma pequena aba virtual se arremessou, na tela, qual um sinalizador, exibindo um comentário altamente emotivo, exaltando o discurso de Narciso. 

– É, verdade... – nosso orador instantâneo apenas contemplava os fogos de artifício pós-modernos – jogando aos céus de plasma caracteres reluzentes, ígneos de um vazio histérico –, estampando um sorriso tolo e imóvel. 

– Bem, meu querido, acho que é isso aí, meu dever foi cumprido. Agora já está muito tarde, vou embora. Amanhã talvez eu volte, dependendo do que você for servir no almoço. Boa noite, meu caro!

O jovem, ainda admirando as saudações digitais, demorou uns segundos para notar a despedida de seu velho inquilino e, quando se virou para tentar convidá-lo a ficar mais um pouco, não havia mais ninguém na sala. Bem, havia, sim, alguém. Na porta de vidro da varanda, por onde o conselheiro da noite entrara, estava o reflexo de Narciso, com uma expressão imbecil de dúvida, surpresa e, quem diria?!, vergonha.

 

Gabriel Couto Díaz, 01/02/2013

As asas parecem estar acopladas nas costas de Matheus Simões Pires, o criador da Mutta Shoes. Mutta, segundo Matheus, vem da palavra mutação, que sugere mudança. Matheus vive alçando grandes voos e, apesar de já ter "caído" muitas vezes, afirma não ter medo de arriscar. Ele diz que "o maior desafio é começar, é dar o primeiro passo". Complementando seu raciocínio, ele profere uma frase que faz sentido não só para a existência da sua marca de calçados, a Mutta Shoes, mas também para o seu jeito de ser. "Até a águia precisa de um empurrãozinho para voar", disse, em uma tarde ensolarada, no movimentado portão de saída do Campus da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em Porto Alegre.  Em um ano e meio de existência da marca, Matheus voou tão alto que já conquistou o mercado norte americano, asiático e frequenta feiras de calçados internacionais, como a Sneakerness.

Quem lhe deu o empurrãozinho que faltava foi a mãe, que lhe tirou da cama cedo certo dia e, juntos, partiram em busca de fábricas de calçados em Novo Hamburgo. Matheus queria produzir vários tênis, mas o medo era seu grande oponente. "Eu tinha vergonha de falar com as pessoas, vergonha de ligar para os fornecedores, tinha muito medo. Então, nesse primeiro dia, me lembro de estar deitado na minha cama de manhã, tendo que acordar para ir fazer isso. Eu me lembro do medo que eu sentia. Acho que eu pagaria um milhão de reais para poder ficar em casa naquele dia e não sair", revela. Mas hoje, reconhece que valeu todo o esforço feito. "Eu tinha tanto medo, estava com um sentimento tão ruim, que eu enfrentei e trouxe uma coisa tão boa, que hoje praticamente é a minha vida e é o meu futuro inteiro. Tudo o que a gente não conhece, nós temos muito medo, mas às vezes a gente se joga e acontece isso", reflete.

Ele é jovem, empreendedor e, acima de tudo, inovador e criativo. Tem 23 anos e está no sexto semestre de Design de Produto na UFRGS. A sua relação com os calçados começou em Novo Hamburgo, aos sábados, em um curso de modelagem do SENAI. "Eu não estava trabalhando porque não tinha um portfólio e as empresas criativas só contratam as pessoas que tem portfólios legais. Eu vi que o único jeito de ir atrás e buscar uma área que eu iria curtir seria fazer alguns cursos nas coisas que eu curtia", comentou, logo após beber um gole de água da garrafa que estava sobre a sua mesa. Matheus também fez outros cursos de sua área de interesse, como cinema e fotografia. Depois de finalizado o curso de modelagem de calçados, surgiu um questionamento. "Já que eu conhecia algumas fábricas, por que não tentar fazer uma amostra pra mim?", se perguntou.  

Mas não foi tão fácil. Matheus conhecia as fábricas que produziam calçados em larga escala e foi bater à porta delas para fazer o seu primeiro tênis. As respostas eram, na maioria das vezes, negativas. "Elas nunca vão querer fazer um par de tênis pra mim porque eles não vão ter lucro e o trabalho que eles vão passar fazendo não vai compensar. Então, eu recebi muita porta fechada, ninguém queria fazer porque eu não tinha uma marca", lamentou. Mesmo com as respostas negativas e desestimuladoras, Matheus não desistiu do seu projeto de fazer um tênis para uso próprio.

Foi aí, na perseverança, que descobriu os artesões. O criador da Mutta Shoes explica que os artesões são responsáveis por fazer amostras de calçados, que são os pés dos calçados que são usados como modelo de apresentação aos empresários e diretores das empresas do ramo calçadista. "Esse par, como é uma amostra, vai representar uma linha da coleção, então ele tem que ser o mais perfeito possível", destacou. Matheus não perde a oportunidade de elogiar a qualidade do trabalho exercido pelos artesões que fazem esses tipos de calçado e ressalta também que essa qualidade na produção era o que estava procurando para a Mutta Shoes. "Eles fazem os calçados com mais cuidados, com mais atenção e eles têm mais tempo. Então, esses caras têm todas as características do calçado que eu estava buscando, que é um calçado com uma qualidade melhor, com um cuidado, com um acabamento melhor. Como eles fazem um de cada vez, eles são autônomos e decidiram fazer para mim este primeiro par", comemorou.

Movimentando as mãos e os braços, Matheus demonstra qual foi a reação que teve ao ver o seu primeiro par de tênis pronto. "Eu curti, fiquei super emocionado, quase chorei, ao ter o meu primeiro tênis", brincou. Mas surgiu outro desafio. "Mas ele não estava bom. Eu vi logo questões que eu poderia alterar", afirmou. Matheus comenta que a cada tênis novo que fazia, ia se aprimorando e, segundo ele, a qualidade dos produtos aumentava.

Ao ir diversas vezes para Novo Hamburgo, Matheus descobriu, por indicação dos artesões, locais onde encontrara as mais diversas qualidades e estampas de couro e tecidos para a produção dos calçados. Ele relembra uma situação que passou ao encontrar uma estampa, até então, inusitada. "Até que um dia eu fui num lugar desses e achei um couro que era tipo uma estampa de girafa. E decidi fazer um par pra mim e com pelo ainda. Eu fiz esse par, ficou 'muito louco' e me lembro que o primeiro dia que eu vim com ele pra faculdade, usando esse tênis, eu estava muito nervoso, porque, pô, o que as pessoas vão pensar? Porque era o primeiro tênis que eu tinha feito que era muito diferente. E quando eu fiz esse, vi que todo mundo olhava. Todo mundo comentava", relembra, aos risos. Ele ressalta que foi com o tênis com estampa de girafa que as pessoas diziam para ele "faz um pra mim, eu quero um assim".

Segundo Matheus, a partir dessa situação inusitada é que surgiu a Mutta Shoes. Ele percebeu que tinha a possibilidade de abrir um nicho de mercado e se desenvolver, para que suas ideias criativas traduzissem a sua essência. "Eu vou pela contramão. Tudo o que as marcas grandes não fazem, tanto design quanto qualidade e atendimento ao consumidor, vou dirigir a minha marca por isso. Foi ai que eu comecei a ver a necessidade de tanto que eu tinha como todas as pessoas criativas têm, que é de ter um produto customizado e personalizado e que tenha a cara dele", explicou.

Matheus dá a possibilidade de seus clientes comprarem os modelos de tênis já prontos e disponíveis no e-commerce ou então, praticarem uma colaboração criativa. A colaboração criativa é uma parceria do cliente com o designer que, juntos, desenvolvem um tênis com os materiais adequados de preferência do cliente e o conhecimento técnico e funcional do designer. O prazo de entrega dos tênis criados na colaboração criativa é de 30 dias e os disponíveis no e-commerce é de 15 dias.

Apesar de hoje Matheus ser o coordenador da empresa e ter, ao total, 4 pessoas diretamente ligadas a sua equipe e aproximadamente 10 artesões que fazem trabalhos terceirizados, no início ele também fazia e participava da produção dos tênis. "No começo aprendi a fazer todas as etapas de produção, eu aprendi a costurar, aprendi a cortar e no início, como a nossa produção era bem baixa, que eu fazia só pra mim e pros meus amigos, fazia muitas partes dessa produção. Mas, depois de um tempo, crescendo a demanda, eu vi que se eu ficasse trancado na produção eu não ia conseguir ter energia para fazer a marca crescer", comentou.

A marca foi criada no início de 2012 e, rapidamente, ficou conhecida principalmente na internet. Matheus conta que gosta muito de pesquisar e acessa vários blogs de moda, e, sabendo o contato das pessoas, ele mesmo fez o trabalho de divulgação na marca. O interesse das pessoas pelos calçados foi tão grande que em julho de 2012, seis meses após o surgimento da Mutta, Matheus estava na feira de calçados "Sneakerness", na Suíça, representando a marca. "A partir do momento que eu fui lá pra fora, que estava me expondo, fisicamente, não virtualmente, já fiz vários contatos e isso aí já começou a me gerar uma rede de contatos internacionais", observou. Um dos projetos que estão em andamento para a Mutta Shoes é a parceria com lojas de Nova Iorque e Ásia para a venda dos seus produtos. Mas Matheus ressalta que a marca vai continuar com o mesmo DNA: produção em baixa escala e produtos de qualidade.

Mas até alcançar o mercado norte-americano e asiático, Matheus reconhece que não foi fácil. Entretanto, a "caçada" como águia está valendo a pena. "Eu vi que tentar coisas diferentes dá muito certo, mas nunca é da primeira vez. Acho que a gente só conseguiu fazer um tênis bom porque eu errei, fiz todos os erros possíveis. Mas nós passamos por todos os erros possíveis até que cada erro fez a gente mudar alguma coisa e melhorar, até chegar em um produto que tu consegues ver e dizer que é de uma qualidade melhor que qualquer outro tênis que tenha no mercado", disse, ao tomar o que restava da sua água com gás.

Matheus sentiu na pele o diferencial de um produto de qualidade. "Se usava material ruim, eu sentia dor no pé. Então eu fui alterando e eu mesmo conseguia ser o meu consumidor teste pra ver o que seria um material bom", explicou. Esse aprendizado lhe gerou um resultado. "Vi que, quanto mais couro tu usares, mais qualidade tu tens", destacou. Os calçados Mutta são feitos de borracha natural no solado, couro de porco na parte interna e couro de vaca na parte externa do tênis.

Ao participar das feiras internacionais de calçados, Matheus teve outra percepção: deveria expandir a área de atuação da sua empresa. Atualmente, a Mutta Shoes está em processo de criação de uma coleção de carteiras e mochilas, além dos já conhecidos tênis. Outra novidade é o estagiário Tim, que a marca mantém em Amsterdã, na Holanda. Com projetos de internacionalização, Matheus revela como deseja que a Mutta Shoes seja vista no mundo. "Quando o cara pensar em Brasil e em cool – em tradução livre quer dizer legal, descolado -, vai surgir a Mutta. Eu quero que a gente represente o Brasil em projetos fodas", almeja.

A águia que, no início, precisou de um empurrãozinho, hoje já não precisa mais. Ela está em constante metamorfose, evoluindo sempre. Vamos aguardar quais vão ser as novas pegadas que os tênis Mutta, do jovem de fala rápida, vão traçar na história da moda. Enquanto isso, a águia está pronta para alçar voos cada vez mais altos.

2013/2:
Sete edições do programa Adapta POA para disciplina de Oficina de redação II (Rádio):















2013/1:
POA.Doc - Documentário sobre profissionais que trabalham na noite de Porto Alegre produzido para a Disciplina de Produção e Edição de Imagem:

Bloco 1



Bloco 2


Bloco 3



Texto produzido para a disciplina de Técnicas de Entrevista e Pesquisa em Jornalismo da professora Ângela Ravazzolo
Águia "Muttamófica" - por Guilherme Thofehrn 

Textos diversionais produzidos na disciplina de Gêneros Jornalísticos da professora Janine Lucht:
Anjo Gabriel por Felipe Travi

O sabor de um sonho por Carolina Pascuetti

A Dois Estalos do Paraíso por Jonathan Munhoz

Lugar Mágico por Gabriela Kliemann Dias

Ah, o interior. Cidades pequenas têm como característica a calmaria, a mesmice e uma espécie de tédio tão delicioso quanto os pequenos restaurantes que só os moradores locais conhecem.  E tudo era exatamente assim naquela tarde ensolarada de domingo. As crianças brincando pelas ruas, um silêncio que permitia ouvir a sinfonia dos pássaros, interrompidos apenas por alguma gargalhada aqui ou ali, e o cheiro de churrasco que o vento trazia e levava.  O mesmo vento que, de vez em quando, soprava gentilmente as folhas das árvores – talvez as únicas que realmente se mexam nestes dias. A sensação de paz era quase palpável. Quase. Naquela tarde, Gabriel se matou.

Gabriel costumava ser uma pessoa de sorriso fácil, com uma risada gostosa e um jeitinho de moleque.  Era o preferido das professoras nas primeiras séries do Ensino Fundamental, tamanha era sua educação e seu carisma. Era uma criança linda: loiro, de olhos azuis e com um sorriso que iluminava o ambiente.  Sempre teve muitos amigos mas, infelizmente, nunca os soube escolher.

A família de Gabriel passava por dificuldades financeiras quando, na sétima série, o transferiram para uma escola pública. Um prédio mal pintado em um bairro pobre da cidade, com muitos alunos e pouquíssimos professores. Por ter estudado em dois colégios, ele agora possuía dois grupos de amigos. Um deles era composto por um bando de meninos “caretas”, que jogavam futebol e brincavam de pokémon, assistiam a desenhos animados e eram, logicamente, de escola particular. Mas Gabriel fez outros amigos em sua nova escola. 

Seu novo círculo de amizades possuía como característica mais forte a heterogeneidade. Alguns alunos que haviam repetido de ano, muitos mais de uma vez, eram agora colegas de Gabriel. Quando o sinal do intervalo se fazia ecoar pelos corredores da escola, saíam da sala de aula Gabriel, com seu cabelo loiro, a pele branca e 1,66m de altura, e seus mais novos amigos.  Jovens altos, com 16 ou 17 anos, que possuíam namoradas, dirigiam ilegalmente, usavam drogas e, claro, odiavam os meninos das escolas particulares. Os chamavam de "bundinhas” e faziam questão que Gabriel ouvisse.

Durante boa parte do Ensino Médio, Gabriel ficou dividido entre os dois grupos. Embora ele adorasse passar o tempo com seus amigos de infância, os “bundinhas” não possuíam a maturidade ou malícia que ele encontrara nos seus novos amigos. Enquanto uns jogavam videogame, os outros bebiam, fumavam maconha e namoravam. As duas realidades foram ficando cada vez mais distantes, e Gabriel também.

Durante os próximos dois ou três anos, ele se tornaria outra pessoa. Seguiu o exemplo de seus novos amigos e repetiu de ano algumas vezes, até desistir e largar os estudos. Sua mãe havia lhe conseguido um emprego em um escritório de advocacia, onde trabalhava como office boy. Ganhava pouco menos de mil reais por mês, mas que eram suficientes para pagar suas festas, roupas e drogas. Perambulava pelas ruas da cidade durante a madrugada, com o cabelo loiro completamente envolto por um capuz e o sorriso esquecido em alguma boca de fumo por aí. De vez em quando, encontrava um de seus amigos de infância mas evitava um diálogo mais extenso. Parecia ter vergonha de quem se tornara, como quem havia percebido que os “bundinhas” também amadureceriam, mas em seu próprio tempo, como deve ser.

Em uma dessas noites, um de seus melhores amigos saiu embriagado de uma festa e capotou o carro. Ficou em coma durante uma semana, recebendo visitas diárias de Gabriel, e veio a falecer. Neste ponto, qualquer pessoa normal ficaria de luto e evitaria o álcool ou as drogas. Mas Gabriel já não era uma pessoa normal. Estava fumando crack diariamente e sofria de uma depressão profunda, que se agravou após a morte do amigo.

Gabriel ficou desamparado. Durante sua vida inteira jamais estivera em um velório e agora, literalmente da noite para o dia, encontrava-se parado diante do cadáver de um de seus maiores companheiros. Um jovem que deixava para trás pai e mãe, algumas namoradas e pouquíssimos inimigos. Nem todas as drogas do mundo tirariam a dor de Gabriel naquele momento.

No dia seguinte, decidiu sair mais cedo do trabalho. Inventou alguma desculpa para seu chefe, pediu um adiantamento de parte do seu salário e foi embora para nunca mais voltar. Pegou todo o seu dinheiro e rumou para uma boca de fumo, gastando até seu último centavo em pedras de crack. 

No caminho para a casa, passou em uma lanchonete e pediu um sanduíche. Gabriel frequentava o local semanalmente para assistir aos jogos do Internacional, seu time do coração. O dono do estabelecimento o conhecia desde os dois anos de idade, mas neste dia não o reconheceu. Aquele jovem de rosto esquelético, com olheiras profundas e olhos vermelhos não era mais aquele menino de sorriso fácil e risada gostosa que um dia conhecera. Anotou seu pedido na conta de sua mãe, embrulhou seu sanduíche em uma sacola e foi embora. E foi a última vez em que Gabriel foi visto com vida.

Trancou-se em casa durante três dias, com uma quantidade enorme de drogas e sem nenhuma forma de comunicação. Desligara o celular, não queria conversar nem com sua mãe, que viajava a trabalho. Não abriria a porta sequer para os amigos, que depois de um ou dois dias desistiram e foram procurar outro lugar para fumar.

Gabriel ficou lá, sozinho. Logo ele, que tinha tantos amigos até escolher os errados. Amarrou uma corda no teto de sua garagem e deixou este mundo que já não era o seu há muito tempo.

Hoje em dia, sua mãe possui uma ONG que ajuda jovens dependentes de drogas, em especial usuários de crack, a se reabilitarem e superarem o vício. Ajuda mais de 40 jovens e suas famílias, para que nenhum outro tenha o mesmo final trágico de seu filho.

Sobre o pai dele nunca se soube muita coisa, nem sequer esteve presente em seu velório, assim como boa parte dos seus amigos. Mas os “bundinhas” estavam lá, despedindo-se daquele velho amigo de infância. Para eles, infelizmente, Gabriel morrera muito antes de se enforcar. 

Passados tantos anos, ainda é difícil não lembrar daquele menininho loiro ao transitar pelas ruas da cidade. É como se ele fosse virar a esquina a qualquer momento, em cima da bicicleta vermelha que possuía quando criança. “Vermelha porque sou do Inter”, dizia. Mas por mais que os olhos de seus amigos e familiares percorram aquelas ruas, Gabriel nunca vira a esquina.

Jamais entenderão como uma cidade pode parecer tão mais vazia apenas por uma pessoa não estar lá. Hoje em dia, só restam as lembranças e saudades daquele menino que tinha nome de anjo e resolveu se tornar um.
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