Mesmo sentado em um ônibus cheio de pessoas, Antônio Cardoso se percebe isolado da multidão. No veículo lotado, há várias pessoas de pé, cansadas e tentando não cair umas nas outras. Todos os bancos estão ocupados – exceto aquele ao seu lado.

A cena triste o faz pensar, não pela primeira vez, que o Brasil pode não ser tão aberto e acolhedor quanto imaginava quando deixou sua esposa e dois filhos em Cabo Verde, na África, para vir ao país estudar.

Antônio Pedro Barbosa Cardoso, natural do país lusófono localizado em um arquipélago da África, hoje mora em Porto Alegre e cursa o quarto semestre de seu doutorado em Política Educacional. Sua situação no ônibus, infelizmente, não é extraordinária: o preconceito acerca dos africanos é muito presente no Estado, seja contra os refugiados ou contra aqueles que, como Antônio, vêm pela educação. Embora bem recebido pela coordenação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, o cabo-verdiano percebe um grande racismo e ignorância da população em geral, algo com que não estava acostumado. “Em Cabo Verde, somos todos negros. Eu só consegui entender essa luta entre negros e brancos quando vim para o Brasil”, declarou.

Embora a presença africana no Brasil tenha se intensificado devido aos novos processos migratórios, o pensamento do povo brasileiro em relação à África ainda é limitado a estereótipos. Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais na UFRGS Nilton Cardoso veio de Cabo Verde há seis anos e também percebe o problema. “Os brasileiros têm pouco conhecimento sobre a África. É uma visão distorcida e ‘afro-pessimista’, pensando que temos apenas guerra e fome”, criticou.



‘Brasiliocentrismo’


Para comemorar o aniversário de independência dos PALOPs – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa – um grupo de professores, pesquisadores e imigrantes organizou uma conferência, realizada na PUCRS, no dia 25 de junho. Dentre outros temas, os painelistas abordaram o nacionalismo, a História e a pós-independência dos países, com ênfase em Cabo Verde, e também falaram sobre o preconceito contra os imigrantes no Brasil.

O auditório da universidade divergia em sotaques e etnias, mas isso não prejudicava o interesse em confraternizar e compartilhar experiências. Já na introdução de sua palestra, o coordenador do programa de graduação de História da PUCRS e pesquisador dos PALOPs, Marçal de Menezes Paredes, procurou se referir ao público como um só. “Africanos, brasileiros... terráqueos”, saudou.

“Acho importante que se faça mais eventos semelhantes, para materializar o intercâmbio cultural”, destacou Paulino Tavares. Há 18 anos no Brasil, o cabo-verdiano veio ao país para estudar e hoje é Doutor em Economia na UFRGS e trabalha no Instituto Federal Farroupilha.

Paredes palestrou no evento sobre o nacionalismo desses países, destacando a necessidade de acolher os imigrantes e sua diversidade não como africanos, mas pelos países de onde são. Ele criticou a falta de ensino a respeito do continente, ressaltando que, quando é estudado, se fala apenas de sua influência para o Brasil, e não de sua própria História. “Todos nós gostamos de falar mal do eurocentrismo. Eu prefiro falar do ‘brasiliocentrismo’”, disse.

O pesquisador ressaltou também a importância de se mudar o pensamento equivocado e negativo que se tem a respeito do continente. “Mais do que uma campanha educativa pela lei, é preciso desaprender algumas ideias com que estamos acostumados”, apontou.

Um povo irmão

Enquanto o Brasil vê o continente africano como se fosse “um bloco só”, de maneira preconceituosa, a percepção de Cabo Verde sobre o país é muito diferente, afirmou Antônio Cardoso. “A imagem que temos é que o Brasil é os Estados Unidos. O Brasil é tudo para nós, e nós consumimos muito da cultura brasileira – a música, o carnaval, as telenovelas”, disse. Cardoso contou ainda que Cabo Verde tem um carnaval semelhante ao do Rio de Janeiro ou da Bahia, com músicas, fantasias e enredo próprios, e que o futebol brasileiro também é bastante forte em seu país. “Quando o Brasil sofreu com a Alemanha, a gente sofreu da mesma forma”, disse.

Além da semelhança cultural, os PALOPs tiveram, desde 2001, mais de 90 projetos bilaterais com o Brasil (de acordo com a Fundação ABC, dados de 2012), principalmente nas áreas de saúde, qualificação profissional, agricultura e pecuária e educação. No entanto, a população, de modo geral, ainda demonstram ignorância sobre os países. “As pessoas mostram isso a toda hora para mim. Primeiramente, não conhecem Cabo Verde, já que a noção que têm é de uma África só, então não imaginam que somos muitos países, e muito menos que eu seria de um deles”, contou Cardoso.

Ele destacou ainda a proximidade entre os dois países – que também se estende para os outros lusófonos-, que ainda é bastante ignorada pelos brasileiros. “Somos um povo irmão. Temos basicamente a mesma cultura – músicas, manifestações culturais, religião católica. Há muita semelhança entre Brasil e Cabo Verde”, ressaltou.
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