"O que se passa no Brasil?" tornou-se um questionamento corriqueiro aos brasileiros que moram. A pergunta vem acompanhada de uma lista de indagações os desdobramentos do pedido de impeachment da presidente da República, tomando espaço nas conversas cotidianas nas quais os motivos do processo de interrupção do mandato de Dilma Rousseff são constantemente debatidos. Na Europa, apesar de ser consenso o mau momento pelo qual a maior economia da América do Sul passa, os habitantes possuem um posicionamento contrário à saída da petista, em consonância com a imprensa local, e demonstram desconfiança no movimento para tirar a chefe de Estado do poder. 

 

 A principal explicação para tal contrariedade está na visão de que o discurso de combate à corrupção é falacioso e esconde os pretextos verdadeiros do impeachment. Para os portugueses, trata-se de uma tentativa da direita de ascender ao poder, com o intuito de atender a reformas que barrem os programas sociais e de barrar investigações contra importantes nomes da oposição. De acordo o ex-Primeiro Ministro português Pedro Miguel Santana Lopes, existe uma “onda” anti-Dilma, sendo que "ela não está rigorosamente acusada de nada”, conforme explicou em entrevista ao programa radiofônico "Renascença". Destaca-se também a falta de um comprovado crime de responsabilidade, premissa jurídica para o afastamento da governante, acentuando uma "destituição por razões políticas”.

Na Universidade de Coimbra (UC) a mais antiga instituição de ensino em Portugal e principal destino de brasileiros em intercâmbio no país - atualmente são mais de 2200 estudantes -, ainda que implicitamente, o discurso do corpo docente se mostra inclinado a contrariar o processo interrupção do governo. Entre as falas, evidenciam-se as conquistas obtidas durante os últimos quatorze anos na ex-colônia lusófona e qualifica-se o movimento encabeçado por Eduardo Cunha como uma tentativa de colocar a direita no poder a qualquer custo, apagando os feitos das administrações Lula e Dilma. "Nos últimos anos, o país teve uma redução sem precedentes dos níveis de desmatamento da Amazônia, contribuindo para retardar o aquecimento global. A substituição de uma agenda alentada para os problemas ambientais por uma de visão capitalista de lucro pelo lucro traria problemas não somente para um povo, mas para a natureza e para a conjuntura global", analisou o professor doutor Martin Coy, titular do Instituto de Geografia da Universidade em Innsbruck, na Áustria, durante uma passagem por Portugal para palestra sobre ecologia política.

 

O brasilianista não acredita na tese de um golpe, mas alguns professores têm pensamentos mais radicais e classificam o processo como tal. É o caso do sociólogo e diretor do Centro de Estudos Sociais da UC, Boaventura de Sousa Santos, para quem o pedido de impeachment "tem aspectos de golpe parlamentar" e é uma tentativa das elites de "intimidar o governo". Em um manifesto público no Facebook, o pesquisador afirmou que "há pelo menos um ano poderosas forças internas, aliadas a poderosas forças externas, têm vindo a planear e executar um processo de desestabilização da vida política, social e económica do Brasil, com o objetivo de recuperar o poder que tiveram no vosso país até ao Presidente Lula ter chegado ao poder". O português baseia sua ideia de golpe na premissa de que para ser o processo ser concretizado, precisa ser provada atividade criminosa por parte da presidente durante seu mandato, o que ainda não aconteceu.

 

Entre os jovens, o pensamento é bastante semelhante, mas não há um consenso. Por um lado, a perspectiva de figuras envolvidas em escândalos de propinas e donas de contas não declaradas no exterior assumirem o governo do Brasil esclarece que o objetivo vai além da "limpeza da corrupção. Pelo outro, há um movimento anti-PT e anti-esquerda liderado pela Juventude Social-Democrata (JSD) portuguesa. O grupo pediu a cassação do título “Doutor Honoris Causa” conferido ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela UC após sua nomeação para a Casa Civil. Como argumento, eles dizem que “no Brasil, quando um pobre rouba, vai para a cadeia, mas quando um rico rouba, vira doutor”. Uma carta aberta foi entregue ao reitor João Gabriel Silva, que negou o pedido.

 

Processo faz esquerda se articular em antigo reduto da elite

 

Desde o período colonial, Coimbra foi um importante centro de formação da elite brasileira, que enviava os filhos para estudos no exterior. De acordo com o vice-reitor Joaquim Ramos de Carvalho, 78% dos ministros tupiniquins entre 1822 e 1940 passaram pelos anfiteatros e salas da UC. A conjuntura histórica reflete no perfil dos alunos brasileiros de hoje, que possuem uma orientação política mais à direita.  Num grupo do Facebook, destinado a brasileiros na cidade, com mais de 13 mil membros, uma discussão sobre o impeachment apontou para uma maioria favorável à queda de Dilma. Entre os argumentos com maior incidência estavam o "descaso com as contas públicas", "nomeação de Lula como tentativa de obstrução de justiça" e "um governo baseado em mentiras e fraude eleitoral".

 

O acalorado desentendimento gerou uma reação da esquerda brasileira no município, que organizou um protesto a favor da manutenção de Dilma no poder e da democracia. Aos gritos de "Globo Golpista", "Fora Cunha", "Não vai ter golpe, vai ter luta", cerca de 110 pessoas se reuniram em uma marcha pela cidade no dia 31 de março. O doutorando na Faculdade de Ciências e Tecnologia Flávio Moraes, fez questão de frisar que está em Portugal sem nenhuma bolsa, apesar de tentando três vezes. "Esse é um discurso muito utilizado pelo outro lado, de que somos a favor porque somos beneficiados por algum programa do governo, o que não é realidade. Temos a consciência de que essa luta da oposição não é contra a corrupção, mas contra um plano de governo que está incomodando os mais privilegiados", ponderou. A diretora do Instituto Brasileiro de Debates, Izabella Romanoff, afirmou ser oposição à esquerda do governo, mas que é preciso defender a democracia e os avanços sociais no país. "O que tem acontecido no Brasil, ainda que de forma incipiente e pequena para a demanda, é uma espécie de mudança que quebra com uma desigualdade história e representa um avanço ao que tivemos anteriormente", discursou.

 

Do país do futebol ao país da palhaçada.

 

No dia da votação do impeachment no Congresso, 17 de abril, eu estava em Berlim neste dia e, pela manhã, encontrei dois indianos que, ao ouvirem que eu era brasileiro, fizeram a pergunta: "como é o nome da presidente de vocês mesmo? Dilma Rousseff? O que se passa no Brasil?" Minha reação foi de espanto, pois viajara justamente para esvair a cabeça da atmosfera política nacional, a qual propagou uma toxina de intolerância, facilmente refletida nos comentários nas redes sociais; e porque fiquei surpreso pela situação ter chegado na Índia - confesso que esperava que falassem sobre os gloriosos tempos do nosso futebol. Expliquei o decurso da situação e como resposta eles me fizeram um novo questionamento: "Ela está limpa, não? O partido a arrastou pra sua sujeira. Querem tirá-la injustamente, assim como querem fazer com a senhora Merkel por causa dos refugiados". Ainda mais espantado pelo conhecimento sobre nosso país, os indaguei sobre como sabiam daquilo. "Somos engenheiros petroquímicos e queríamos fazer negócios com a Petrobras, mas achamos melhor não nos arriscar. Aqueles que querem a saída da presidente estão envolvidos com as propinas na empresa, certo?".

 

No final daquela tarde, saí para fotografar o Portão de Brandemburgo e, à medida que me aproximava do monumento, o som de uma música bastante peculiar ficava cada vez mais alto. Embalados por "Roda Viva", de Chico Buarque, um grupo de brasileiros carregava faixas e bandeiras contra o impeachment, enquanto gritavam palavras de ordem: "não vai ter golpe, Dilma fica", "fora Cunha", "Temer nunca, lutar sempre". Uma das manifestastes era a paulista Annix Lim, quem vive na Europa há 10 anos. "Por conta da experiência com os governos de direita, a população daqui tem uma identificação muito maior com tendências à esquerda e que se aproxime mais do povo. Berlim, por exemplo, é uma cidade muito alternativa", comentou. Um pequeno aglomerado de nativos também participou do evento, o qual aconteceu somente após autorização da polícia municipal. Entre eles a jornalista Ulrik Wiebrecht, com quem conversei por alguns minutos. "Estamos muito preocupados com a situação, porque o que está em perigo é a democracia. Se a direita conseguir fazer um golpe, seria algo muito negativo para o país e também para a Europa, por conta das relações diplomáticas", comentou. 

 

De volta a Portugal, no dia seguinte, as primeiras palavras dirigidas a mim foram "Huehuehue, o Brasil é mesmo a pátria da zoeira". A votação elevou o país à chacota internacional, e os argumentos utilizados por uma grande parcela dos deputados virou motivo de piada, na qual a própria graça está na politicagem que faz a máquina do Estado rodar. Um colega de classe disse que é impossível dar credibilidade ao movimento quando "os representantes dão explicações como aquelas para tirar a presidente. Parecia um comício o que aquilo tudo era uma brincadeira”. 

 

Em meio às piadas, repúdio à fala saudosa da ditadura

 

Não foram somente brincadeiras que seguiram a realização do pleito. Em 25 de abril de 1974, acontecia em Portugal a Revolução dos Cravos, um movimento de revolta popular que colocava fim ao Governo do Estado Novo, abrindo as portas para a democratização do país. Na efeméride, celebrações por todo o país são comuns, com programações que envolvem desde jantares, apresentações musicais e a tradicional "queima do facho", em Coimbra. À meia noite, ateia-se fogo num espantalho representando o fascismo, enquanto os moradores cantam e festejam gritando versos como "25 de abril sempre, fascismo nunca mais". Antes da cerimônia acontecer, um membro do ateneu da cidade fez um discurso. Nesse ano, os portugueses não deixaram de mencionar o Brasil o discurso classificado como fascina do deputado Jair Bolsonaro. "Não posso deixar de citar nesta data simbólica e histórica para nós o momento que nossos coirmãos enfrentam. Apesar de não terem vivido o fascismo puro, sofreram com um período orientado para tal. É inevitável repudiar o discurso de parlamentares que fazem apologia àquela ditadura e celebram os torturadores do povo. Temos que calar essa voz!".

 

O tema virou debate não só nas mesas das cantinas, mas também nos meios de comunicação. O jornalista Miguel Sousa Tavares afirmou em rede nacional que nunca viu o Brasil descer tão baixo. Nas telas da rede SIC, ele comentou que “chegar a essa grau de indignidade ultrapassa tudo que é respeitável” e que a tentativa de derrubada do governo "foi uma assembleia-geral de bandidos, comandada por um bandido chamado Eduardo Cunha”. O cuspe do deputado Jean Wyllys também repercutiu de maneira negativa, pois demonstrou uma perda da racionalidade de uma esquerda até certo ponto sucumbida às forças da direita, abrindo precedentes para críticas ao governo.

 

Os olhos europeus que analisam o impeachment vestem óculos de desconfiança em relação ao processo: a queda da chefe de Estado é vista como uma vitória da hipocrisia ante a democracia das urnas, pois os principais articuladores e sucessores são citados em esquemas de corrupção e apresentam um planejamento de governo voltado para as camadas mais altas da sociedades. Na Europa, acredita-se no percurso natural, com altos e baixos, mas sempre respeitando o andamento original - o continente vive uma crise, com os resquícios das políticas de austeridade, baixo desenvolvimento demográfico, altas taxas de desemprego e a ineficiência da União Europeia em encontrar uma solução duradoura, humanista e multicultural para os refugiados. Sabe-se, pois, que é preciso ter paciência para superar as dificuldades, acreditando nas instituições e mantendo a ética da política.

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